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  • 2019-05-15T00:56:09Z via datamost.com Web To: Public CC: Followers

    Início Destaques Assédio moral e luta na Pirelli

    Assédio moral e luta na Pirelli

    https://passapalavra.info/2019/05/126484/

    Muitos companheiros voltam pra suas casas dopados de remédios pra dor muscular, chegam pra trabalhar tomando remédio e vive pra trabalhar num ambiente que só mata.
    14/05/2019
    9
    assdio moral

    Por João

    Meu nome é João, trabalho nesta fábrica há 8 meses desempenhando uma função das mais exaustivas dos 5 grandes setores da fábrica. Sendo elas: “Matéria-prima e bamburys”, “semiprontos”, “confecção”, “vulcanização” (que é onde trabalho) e o “acabamento”. Nesses setores todos, as condições de trabalho são precárias, com máquinas extremamente “idosas” que quebram todos os dias ao menos uma vez, causando acúmulo de trabalho atrasado (pois a produção não para nunca!). assdio moral No último mês de dezembro, junto com a economia mundial em beiras de uma crise avassaladora, a Pirelli Campinas demitiu cerca de 200 funcionários dos mais variados, operadores em sua maior parte, mas também gente da chefia, aposentados, lesionados, os ditos “meia boca” (que não conseguem deixar a mais-valia comer solta em sua carne)… Com a conivência do sindicato, que em anos de história já conseguiu dividir uma base de quase 10 mil trabalhadores da indústria de borracha na região de Campinas em um sindicato por empresa (Campinas: Pirelli e Bridgestone, Americana: Goodyear; nas demais cidades da região empresas menores, nacionais e “menos importantes” pro sindicato). Sendo assim, num quadro de 2200 funcionários, em um mês esse número baixou muito, mas logo veio outro facão. assdio moral Em março, cheguei um belo dia na fábrica, eu, que trabalho no segundo turno, encontro com um colega do primeiro que fala “mulequinho, enfia o celular no cú, porque se os cara pegar cê roda também!”… Chegando no meu posto, vi que não estava normal o fluxo de trabalho, e tava bem pequeno… Fui olhar pras máquinas que abastecem o meu posto, estavam faltando 6 operadores, de 10 que trabalham ali… Pois bem, neste mesmo dia, no final do turno, havia uma van esperando pelos próximos alvos do facão no terceiro turno. Ao final, foram mais quase 200 pra vala… A Pirelli em Campinas é popularmente conhecida como “mãe”, por isso quando você fala pra alguém que você trabalha lá é provável que você vá ouvir “nossa que bom, lá o salário é ótimo, neh?!” Ou “aaah, a Pirelli é uma mae, neh?!”. A verdade é que quem diz isso provavelmente não trabalha nem nunca trabalhou lá… Eu entrei ganhando menos de nove reais a hora, até que não é tão ruim em vista do que essas “grandes multinacionais” instaladas aqui na região tão fazendo com a reforma trabalhista valendo. A grande questão é que o teto deste salário é tão baixo que dá pra comparar com das senzalas. Outra grande questão é que o tal “dois anos para igualar” o salário é burlado e usurpado pela empresa, com quase dois anos de congelamento dos “aumentos” (que nada mais são que progressões da categoria, que são, vale dizer, uma conquista história da classe operária brasileira). Fora essa progressão, não há aumento salarial real algum! assdio moral Como consequência das demissões em massa (prevendo um próximo facão pra no máximo dois meses), a ultracarga de trabalho se torna cada dia maior, perdemos nos últimos seis meses os horários de café (20 minutos), operamos mais de uma máquina ao mesmo tempo, e muitas vezes fazemos funções de diversas áreas pois “está sobrando mão de obra”, diz a chefia… Isso só no meu setor, na matéria prima-as condições de um ser humano habitar aquilo é somente por extrema necessidade do emprego! Os exaustores quebram e todo o pó preto emborrachado fica no ar da fábrica, névoa de pneu no pulmão do proletariado. E tudo isso com o mínimo de EPIs possível, só o básico mesmo pra não dizer que não tem. Muitos companheiros voltam pra suas casas dopados de remédios pra dor muscular, chegam pra trabalhar tomando remédio e vive pra trabalhar num ambiente que só mata. Em 2012 houve a primeira greve na fábrica da Pirelli Campinas, a produção foi paralisada por 48h, turno após turno, com a pauta explícita: “contra o assédio moral!” “Por melhores salários e condições de trabalho”, vejam os vídeos no YouTube (aqui e aqui) e vejam como a luta foi bonita. assdio moral


  • 2019-05-14T22:30:25Z via datamost.com Web To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Movimentos em Luta 14 MAIO 2019 (GO) UFG escolhe demitir 34 trabalhadores terceirizados

    14 MAIO 2019 (GO) UFG escolhe demitir 34 trabalhadores terceirizados

    14/05/2019
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    Por Coletivo Invisíveis

    Quantas vezes você se perguntou onde foi parar a moça da limpeza que mantinha o seu prédio higienizado? E o senhor da vigilância que, além de trabalhar muito, se dispunha a te informar sobre lugares da Universidade? Talvez você não saiba, mas pra eles os cortes chegaram (e ainda chegam) mais cedo. Durante a Assembleia Universitária realizada no Centro de Eventos do Campus Samambaia, o reitor apresentou dados referentes, dentre outras coisas, ao gradativo corte de verbas destinadas ao custeio/investimento dentro da UFG. O que não foi explicitado, no entanto, é como essa queda orçamentária influenciou na vida dos trabalhadores terceirizados (desde 2014 houve redução no quadro geral e isso você vê no link abaixo ). Pensando na intensa exploração sofrida de forma crescente por estes trabalhadores, hoje os técnico-administrativos cobraram do reitor transparência e prioridade nas contas relacionadas a trabalhadores terceirizados. Alguns minutos depois, fomos avisados pelos próprios funcionários terceirizados (em estado de desespero) de que, mais uma vez, a crise já batera à porta antes mesmo de finalizada a Assembleia da Esperança. A UFG optou por demitir trinta e quatro trabalhadores da vigilância. Confirmamos isso com imagem do aviso prévio e apuração de que, de fato, foi por corte de gastos, apesar de isso não ter sido explicado na hora da entrega do aviso prévio.
    Não faz sentido se esforçar para quitar dívidas de energia, água, e deixar à míngua pessoas que tanto fizeram (e fazem) pela Universidade Pública. É inaceitável que, para “não afundar de vez”, a gestão expulse do navio os tripulantes responsáveis pela sua construção e manutenção! É irresponsável realizar a construção de mais prédios se não haverá braços que garantirão seu funcionamento! Por isso, o Invisíveis convida você, trabalhador ou estudante, que faz parte do cotidiano da Universidade Federal de Goiás, a compartilhar esse post e apoiar o trabalhador terceirizado de sua unidade. “Mas diz aí como eu faço isso, Invisíveis?” *Questione a direção de sua unidade, onde está aquela moça que ficava no balcão ou na limpeza;
    *Fale com o moço da vigilância e veja se ele recebeu o aviso prévio ou conhece alguém que tenha recebido;
    * Pergunte à moça da limpeza onde está a sua colega de serviço e se falta material de trabalho;
    *Converse com os seus colegas e leve às assembleias e reuniões de sua unidade a pauta de defesa da garantia dos trabalhadores terceirizados;
    * Reivindique que os professores e estudantes sigam o exemplo dos técnicos e pressionem o reitor.
    Mostre que você, ao contrário da administração da UFG, se importa com os seres humanos que estão por trás dos uniformes e vamos juntos exigir que a reitoria reverta essas demissões. Trabalhador invisível, há quem te enxergue!

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  • 2019-05-14T22:26:19Z via datamost.com Web To: Public CC: Followers

    Faltaram 34

    Pois bem, se essa não é a pauta deles, é a nossa. Trinta e quatro famílias vão ser afetadas, tô falando de pôr comida na mesa e pagar conta pra sobreviver. Tô falando de gente, PESSOAS, demitidas, arrasadas, preocupadas.
    14/05/2019
    183

    Por Isadora Malveira

    Hoje, dia de assembleia geral convocada pela reitoria [da Universidade Federal de Goiás — UFG], tinham cerca de 4 mil pessoas no Centro de Eventos, aguardando o posicionamento e informes sobre a situação financeira da universidade. Reitor garantiu que na haveriam demissões devido aos cortes de gasto. Alívio! Ao menos uma pequena vitória no meio de tantos ataques e, sinceramente, derrotas. Enquanto o reitor convidava essas pessoas todas pra abraçar o Centro de Eventos, companheiros vão falar com os funcionários terceirizados, pra levar a boa nova. Eles, no entanto, os receberam com a voz embargada e um aviso prévio na mão. Trinta e quatro vigias foram demitidos. Trinta e quatro. Os primeiros afetados nesse momento são os trabalhadores. A notícia das demissões foram um soco no estômago, assembleia estava cheia, um momento pra se pedir um esclarecimento da reitoria e pra lembrar todos os presentes quem já está fudido. A fila para inscrição de fala estava gigante, era impossível falar do 39° lugar, lá já estaria esvaziado [a assembleia]. Na esperança, ainda me iludo às vezes, falei com um pessoal do DCE, que falariam logo em seguida, pra ver se me davam um minutinho ou, eles mesmos, levassem essa informação ao público. Mas, não, essa não era a pauta deles. As falas que se seguiram foram agradecendo a reitoria de esquerda por proporcionar ao corpo estudantil aquele momento. Foi pra tirar o pé do chão, estilo show de axé. Pois bem, se essa não é a pauta deles, é a nossa. Trinta e quatro famílias vão ser afetadas, tô falando de pôr comida na mesa e pagar conta pra sobreviver. Tô falando de gente, PESSOAS, demitidas, arrasadas, preocupadas. Sabe, o chão da faculdade não se limpa sozinho, o banheiro não se lava sozinho, a segurança não é feita por mágica, a UFG não é Hogwarts que as portas se abrem só, precisa de um funcionário responsável pelas chaves, pra abrir e fechar. É um soco no estômago e é pra ser mesmo. É pra doer. É absurdo, é inadmissível. Ainda me surpreendo, sim. Porque é uma questão tão básica, de solidariedade primária. A defesa da universidade se faz urgente mesmo e, pasmem, lutar para revogar essas demissões se tratam disso também. Essa é uma pauta urgente, pra ontem. O inadmissível é inadmissível. Não deve ser acostumado, não deve ser relevado nem negociado. Inadmissível é pra ser rechaçado, acabado, destruído. E essas demissões são isso, inadmissíveis. Cabe a nós lutar para revogar cada uma delas. Abraçam prédio mas não olham com humanidade pra seres humanos, inadmissível.

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  • 2019-05-14T09:18:00Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Movimentos em Luta 30 ABRIL 2019 Auxiliar Invísivel denuncia humilhação, terceirizados lutam por passe

    30 ABRIL 2019 [GOIÁS] Auxiliar Invísivel denuncia humilhação, terceirizados lutam por passe

    https://passapalavra.info/2019/05/126401/

    Pois bem, a vida é feita de injustiças? Sim. Temos que aceitar? Não.

    01/05/2019

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    Por Auxiliar Invisível

    Então, o que você faz mesmo? Relato de uma auxiliar de atividades da educação municipal de Goiânia

    Vocês sabem o que um Auxiliar de Atividades Educativas é ou o que faz? Tudo bem. A própria Secretaria Municipal de Educação (nossa querida SME) não sabe dizer ao certo, na verdade, nem lidar conosco ela sabe. São vários casos de problemas de saúde, físicos e/ou mentais, por conta do trabalho puxado, do tratamento diferenciado (para o mal) dentro das instituições – CMEI’s, CEI’s, Escolas, da falta de organização da SME ao lotar funcionários em instituições e depois avisar que essas pessoas estão excedentes várias e várias vezes e, quando questionada, simplesmente diz que temos que “aceitar” (aos berros) pois a vida é assim, cheia de aprendizados.

    Pois bem, a vida é feita de injustiças? Sim. Temos que aceitar? Não. Não temos que aceitar ser ignorados pelos pais/familiares das crianças na entrada ou saída das instituições. Não temos que aceitar ser feitos de tapa-buraco quando a professora falta. Não temos que aceitar ser quebra-galhos quando outros funcionários faltam. SME e seus representantes dentro das escolas, CEIs e CMEIs têm que entender que quando fazemos algo que não está dentro das nossas atribuições estamos fazendo um favor e, como tal, podemos nos recusar. Ser educado, prestativo, pensar no coletivo, não nos torna TROUXAS.

    A/o Auxiliar, também conhecido por outros nomes, é quem: “Auxilia professores nas atividades voltadas para o desenvolvimento integral das crianças e/ou educandos, responsabilizando-se pelo: cuidado com a alimentação, descanso e higienização dos alunos e dos utensílios de uso comum, recebimento e entrega das crianças aos pais ou responsáveis, organização dos materiais pedagógicos e equipamentos utilizados nas aulas e oficinas, acompanhamento de educandos em traslados, quando for o caso, e, de forma mais individualizada, cuidado aos alunos com necessidades de apoio nas atividades de higiene, alimentação e locomoção que exijam auxílio constante no cotidiano escolar.” (Edital do Concurso de 2016)

    Não sei vocês, mas acho que somos MUITO IMPORTANTES para o andamento das atividades dentro das instituições. Então, por favor, se vocês têm contato conosco, tenham mais respeito, consideração e mesmo afeto. Aos colegas, mais consideração, por favor. Não nos confundam com servos. À SME, mais respeito, também somos profissionais, está passando da hora de termos oficialmente uma categoria adequada pois no momento somos meio administrativos, meio pedagógicos. Às famílias, afeto, nós passamos muito tempo com as crianças e nosso carinho e cuidado com elas é real.

    LUTA PELO RETROATIVO DO VALE TRANSPORTE

  • 2019-05-14T09:16:54Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Achados & Perdidos Mais histórias da Livraria Cultura (II)

    Mais histórias da Livraria Cultura (II)

    https://passapalavra.info/2019/04/126353/

    Ele era o cara que dava a cara a tapa. "Salário veio errado" e ele já estava lá no RH questionando. "Loja era obrigada a fechar no feriado mas queriam abrir" e ele quem chegava lá com a convenção coletiva.

    26/04/2019

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    Por DORAlivreira

    Esse Achado & Perdido faz parte do dossiê “Causos de trabalho”: uma seleção, feita pelo Passa Palavra, de threads relatando o cotidiano e curiosidades de diferentes trabalhadores.

    Foi criado no Twitter um perfil exclusivo para fazer as denúncias em relação à exploração, abusos e desmandos realizados contra os livreiros. Segue aqui umas das primeiras threads.

    Vendo tudo isso acontecendo criei até essa conta no Twitter para poder falar dos 5 anos que meu colega trabalhou na Livraria Cultura de Brasília. Segue a thread…

    Primeira vez que ele entrou na Cultura ele ficou deslumbrado, passou muito tempo contemplando tudo, enquanto andava pela Livraria, recebia um bom dia e um sorriso de um funcionário que passava por ele com alguns livros que estava guardando. No fundo uma música bem tranquila.

    E ele falou que seria um sonho trabalhar na Livraria Cultura. No outro dia lá estava ele deixando o currículo e pouco tempo depois participando do processo seletivo e depois sendo chamado para começar a trabalhar.

    No início ele estava fascinado com tudo, tudo funcionava, tinham tudo para tornar a experiência dos clientes a melhor possível. Mas já na época que ele entrou já escutava alguns borburinhos.

    Ele ia almoçar com a galera mais antiga e eles sempre comentavam algo… A colega que estava treinando ele já falava para não se preocupar, para aproveitar essa fase de ficar deslumbrado com tudo, mas que na real já estava rolando muita coisa tensa.

    E aos poucos foi começando a perceber a merda que era esse ambiente. Quando aconteceu o caso de Curitiba, tiveram colegas sendo demitidos apenas por terem respondido o e-mail… Foram várias demissões em várias lojas, até que desabilitaram esse e-mail interno.

    Mas o pior ainda estava por vir. Eis que uns anos depois chega o banco Itaú e começam as mudanças nos contratos. E foi bem isso, eles iriam agora trabalhar com metas de vendas que iriam impactar diretamente no salário, com um detalhe que nos primeiros meses seria como se eles tivessem batido a maior meta… Era assim: “olha o quanto vocês poderão ganhar”. Mas tinha muito mais por trás disso. Sabe o lance das advertências? Então, se você ganhasse uma, você não ganhava um benefício X. Se chegasse 1 minuto atrasado, ficava sem o benefício Y.

    E adivinha, esse meu colega não assinou. Foi um dos poucos que comprou a briga com esse novo contrato e não assinou nada que eles trouxeram para ele. Todos achavam que ele seria demitido, mas não, mesmo ele não assinando falaram que ele iria receber como todos os outros.

    Claro que agora que tudo isso veio a tona já sabem o que aconteceu… Foi uma perseguição absurda para tentar encaixar uma justa causa nele. Mas esse meu colega ficou atento a isso e fazia tudo na maior perfeição, e isso deixava a gerência P da vida.

    Ele nunca atrasava, seus atendimentos eram prefeitos, seus pedidos sempre bem monitorados, recebia elogio de clientes e dos colegas, ou seja, não dava nenhuma brecha. E ele acabou se tornando a referência para questionar a gerência.

    Ele era o cara que dava a cara a tapa. “Salário veio errado” e ele já estava lá no RH questionando. “Loja era obrigada a fechar no feriado mas queriam abrir” e ele quem chegava lá com a convenção coletiva.

    Sério, ele segurou a barra da galera. Até que um dia ele comprou a briga com o dono… Aí a coisa ficou mais séria. Ele questionou o dono porque a meta do mês era X sendo que era o pior mês do ano e em nenhum outro mês eles haviam chegado se quer perto disso…

    Ou seja, metas impossíveis de serem batidas… Itaú na veia, né. E rolou até uma reunião dele com o dono. Foi bizarro… O dono em Brasília sentado com ele mais o gerente no café. Depois disso a coisa começou a apertar para ele. Estavam mais ainda de olho nele.

    Sobre a meta, a desculpa que falaram pra ele era que ela era feita mais de um ano antes, parece piada. Eis que conseguem dar uma advertência para ele… E o motivo eu nunca vi mais banal, sério, quando ele me contou achei surreal. Não foi justa causa, mas ele perdeu um dinheiro do bônus.

    Motivo da advertência: ele estava sem cadeado no seu armário pessoal. Aconteceu o seguinte… Ele saiu de férias e quando voltou, 2 dias depois ele levou a advertência. Detalhe que eles falaram que avisaram o mês todo que era obrigatório o uso do cadeado e que falaram pra ele quando ele voltou, mesmo ele falando que não estava sabendo de nada… Foi surreal. Mas ele continuou firme, mesmo sabendo que até o computador que ele usava era monitorado.

    Resultado: nunca conseguiram desestabilizar ele ou dar outra advertência e por fim mandaram ele embora. Hoje ele está na justiça contra a Livraria Cultura, mas por outros motivos.

  • 2019-05-14T09:16:14Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Achados & Perdidos Mais histórias da Livraria Cultura (I)

    Mais histórias da Livraria Cultura (I)

    https://passapalavra.info/2019/04/126264/

    Cansada de tudo isso, a única funcionária que havia sobrado no RH abandonou o emprego, não aguentava mais ter que lidar com tantas demissões injustas. Por uma semana, a loja não tinha mais ninguém pra realizar as demissões.

    24/04/2019

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    Por Mister smoka lot

    Esse Achado & Perdido faz parte do dossiê “Causos de trabalho”: uma seleção, feita pelo Passa Palavra, de threads relatando o cotidiano e curiosidades de diferentes trabalhadores.

    Relato de um ex-trabalhador da Livraria Cultura, motivado pela entrevista Pacto de Mediocridade, reforçando a denúncia dos constantes abusos sofridos pelos trabalhadores aí empregados:

    1. Uma funcionária tomou advertência logo ao entrar no chão da loja. Motivo: um gerente a viu com a parte debaixo da camiseta de uniforme da Livraria amarrada. Detalhe que a funcionária usava um uniforme umas 3 vezes maior que o seu tamanho.

    2. Me deram uma advertência uma vez por ter apresentado um atestado médico com atraso. Isso mesmo, como não podiam dar advertência pela falta, pois ela foi justificada, inventaram esse motivo.

    3. Agrediram Eduardo Suplicy dentro da loja. Os seguranças nada fizeram e a livraria não se posicionou. Suplicy foi agredido por reacionários que invadiram a loja pra acusá-lo de comunista.

    4. A segurança do Conjunto Nacional um dia agrediu duas funcionárias da livraria pois elas não apresentaram o crachá pra entrar na porta de funcionários. Se não fosse eu e outro cara empurrar o segurança, ele teria espancado elas. A Livraria se omitiu e não fez absolutamente nada.

    5. Devido a fila gigante pro atendimento, já que a demissão em massa reduziu a equipe, um cliente estressado agrediu uma vendedora, deu um soco em seu ombro, culpando-a pela demora e foi embora na maior tranquilidade. A Livraria mais uma vez nada fez.

    6. Sérgio Herz [CEO da Livraria Cultura] aparecia quinzenalmente pra colocar terror nos funcionários. Parava na frente do caixa central e ficava encarando panoramicamente o setor de literatura da loja, sempre mal encarado. Todo mundo se sentia péssimo pois sabia que o chefão estava sedento por demissões.

    7. O gerente contratado com a missão de demitir o máximo possível de pessoas por justa causa andava de fininho, na encolha, espionando funcionários com muitas advertências pra tentar flagrar algo irregular que justificasse uma posterior demissão por justa causa.

    8. Deixaram de depositar o meu Vale Transporte (uma semana de atraso). Eu morava em Diadema, usava ônibus e metrô. Obviamente não pude ir trabalhar nesses dias. Resultado: Tomei uma SUSPENSÃO.

    9. Por falta de pessoal, um dia me fizeram levar pilhas e pilhas de livros do subterrâneo até a loja, sozinho. No outro dia, o gerente veio me cobrar dizendo que eu não levei todos os livros e me acusando de ter tirado pausas irregulares pra descansar.

    10. A família Herz é inteira muito mal educada com os funcionários. Tanto o pai, ex–CEO, quanto os filhos, encarregados da atual administração. Já atendi todos e em todas as vezes fui tratado feito lixo.

    11. Você que frequenta a livraria, vai perceber que pouquíssimos dos vendedores antigos ainda estão lá. O que acontece é que, como o salário na época deles era mais alto, a empresa preferiu mandar todos embora pra trazer mão de obra mais barata.

    12. Colocavam todo dia metas impossíveis de alcançar (coisa de 100 mil em vendas pra cima), pra depois a meta obviamente não ser batida. Nós tínhamos que ouvir, todo dia 20 minutos antes do expediente, o gerente nos culpando por não bater a meta inalcançável.

    13. Um funcionário assediava quase todas as vendedoras da loja. Situação foi repassada a gerência que resolveu se omitir de fazer algo, já que o funcionário em questão era totalmente subserviente a gerência e acabou pouco depois inclusive sendo promovido.

    14. O antigo gerente da loja começou a ter problemas de saúde devido a toda a pressão da chefia. Como era um gerente mais humano, não queria cumprir as ordens de advertir funcionários por qualquer motivo possível. Da última vez que soube, realocaram o cara pra outra loja.

    15. Cheguei na loja no dia que Sérgio Herz prometeu mandar embora com todos os direitos quem colocasse o nome numa lista e tudo que eu vi foram vendedores que estavam há 5 ou mais anos na loja regozijando de alegria. Ser demitido de lá em 2016 era visto como vitória.

    16. Cansada de tudo isso, a única funcionária que havia sobrado no RH abandonou o emprego, não aguentava mais ter que lidar com tantas demissões injustas. Por uma semana, a loja não tinha mais ninguém pra realizar as demissões.

    17. Em determinado domingo, a loja ficou muito desorganizada pois a demanda do atendimento era alta e a equipe pequena. Herz foi a loja, não gostou do que viu e pediu pra que a subgerente responsável pela loja no dia fosse demitida. Ela saiu chorando copiosamente.

    18. Em determinado momento, trocaram o nome do cargo “operador de caixa” pra “auxiliar de vendas”. O motivo foi poder atribuir ao operador qualquer função que quisessem dentro da loja, e de quebra pagar menos, já que um auxiliar não ganha o extra da quebra de caixa.

    19. O auxiliar de vendas era cobrado por diversas funções, a cada dia era escalado em um trampo diferente. No fim das contas, em média o auxiliar exercia de 3 a 4 funções no mesmo dia.

    20. A sala da segurança ficava do lado da sala da gerência. O boato é que os seguranças eram orientados a buscar nas câmeras irregularidades de determinados funcionários. Proteger as mercadorias teria virado função secundaria, a prioridade era conseguir motivos pra demissões.

    21. Preferiam jogar fora os comes e bebes que sobravam de eventos de lançamento do que deixar os funcionários comerem.

    22. Um colega me contou que chegou atrasado um dia pois teve que acompanhar a namorada gravida no ultrassom. Não apenas teriam descontado as horas, ainda teriam lhe aplicado uma advertência sob a justificativa de que “esse atestado não conta”.

    23. Um colega meu certo dia foi trabalhar muito doente, no sacrifício. Pediu a gerência pra exercer nesse dia uma função menos exaustiva, que não envolvesse atendimento, e colocaram o cara pra subir e descer carrinhos cheios de livros o dia inteiro.

    24. A Livraria havia se tornado famosa pelos calotes em editoras. Em meados de 2016, certos ex parceiros de negócios cortaram relações, o que acabou fazendo com que determinados produtos de alta demanda ficassem em falta.

    25. Num parêntese pessoal, afirmo que foi com certeza o lugar onde vi mais colegas de trabalho desenvolvendo serias doenças em decorrência da insalubridade do local de trabalho que havia se tornado hostil.

    26. Todas as histórias que eu descrevi são da unidade “matriz”, a megaloja da Paulista onde eu trabalhei. Porém, conhecidos nos relatavam historias igualmente absurdas em todas as outras unidades de São Paulo.

    27. Certa feita, em uma reunião diária, o gerente da loja disse a todos os funcionários que se as metas não fossem batidas “não vai ser só eu que vou pagar o pato, vocês também vão”, em tom ameaçador.

    28. No começo de 2016, instituíram uma regra que determinava que os operadores de caixa não mais poderiam trabalhar sentados, implicando que isso configurava em falta de profissionalismo. As cadeiras nos caixas se tornaram decorativas.

    29. Minha primeira advertência verbal foi porque, no chão de loja, um gerente viu o realce do celular no bolso da minha bermuda. Quando argumentei que eu nem ao menos cheguei a tirar o aparelho do bolso, a resposta foi que não tem porque eu estar com ele se eu não posso usar.

    30. O gerente, culpando os vendedores pelas baixas vendas, disse que a loja ia mal pois nós não atendíamos mais com um sorriso no rosto, com o “jeito Cultura de ser”. Difícil atender feliz estando sobrecarregado e atendendo até 5 clientes simultaneamente.

    31. Em momento algum foi de nosso conhecimento como a comissão funcionava, quais métricas eram calculadas. O valor parecia arbitrário. Tudo que sabíamos era que, se a loja não batesse a meta do mês, ninguém ganhava nada de comissão.

    32. Em uma época de promoções, a empresa intensificou as regras de conduta pra ter motivo pra aplicar medida disciplinar nos funcionários, tornando-os inelegíveis pra promoção. Dobrar a manga da camisa passou a ser motivo de medida disciplinar.

    33. Soube a época de 5 funcionários que entraram na justiça contra a Livraria enquanto ainda trabalhavam lá. Essas pessoas eram em geral mal vistas e perseguidas pela administração da loja.

    34. Eu levava uma hora e 20 minutos no trajeto Diadema/SP, mas a empresa traçou uma nova rota mais barata, na qual eu levaria 3h no trajeto casa/trabalho. Sairia de casa as 11h pra voltar a 1h da manhã. Pra mim foi a gota d’água.

  • 2019-05-14T09:15:19Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Flagrantes Delitos Não preciso

    Não preciso

    https://passapalavra.info/2019/05/126451


    11/05/2019

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    Em um bar na frente de uma universidade, um viado bacana estava numa mesa com outros viados e não viados num papo legal sobre preconceitos e desejos. E lá estava um viado insuportável, metido a ser muito em tudo, descolado, drogado, intelectual… Esse aí virou pro outro, que era mais pobre, mais simples, menos acadêmico e pergunta se ele já leu Foucault. O outro respondeu: “Não preciso ler Foucault para dar o cú”. Passa Palavra

  • 2019-05-14T09:14:16Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Pensar Ideias & Debates Classe / identidades

    Classe / identidades

    https://passapalavra.info/2019/03/125676

    Hoje, quando se trata de começar, a partir do seu nível mais baixo, um novo ciclo de lutas, é indispensável distinguir a política de classe e a política de identidades, sem supor que uma possa aliar-se à outra.

    20/03/2019

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    Por João Bernardo

    A classe trabalhadora pode ser definida no plano económico ou no plano sociológico. É indispensável não confundir estes dois planos.

    Eu defino o tempo como a substância do capitalismo, porque a mais-valia, ou seja, o processo de exploração, ocorre no tempo e resulta de contradições operadas no tempo. Aqueles que controlam o seu próprio tempo de trabalho, ou participam nesse controle, e simultaneamente controlam o tempo de trabalho alheio constituem as classes exploradoras (burgueses e gestores). Aqueles que não controlam o seu próprio tempo de trabalho nem o tempo de trabalho alheio constituem a classe trabalhadora. Aqueles que controlam o seu tempo de trabalho e não controlam o tempo de trabalho de mais ninguém são exteriores ao modo de produção capitalista, com o qual se relacionam apenas através do mercado (artistas, artesãos individuais e o que resta das velhas profissões liberais).

    Neste plano económico a classe trabalhadora tem uma existência permanente e verificável. A Gestão dos Recursos Humanos está no centro das preocupações de qualquer patrão ou administrador, e falar de «recursos humanos» é simplesmente um eufemismo para não dizer «classe trabalhadora».

    Quem ler as análises publicadas pelos teóricos e pelos técnicos do capitalismo sobre os sistemas de produção e os desafios colocados à administração de empresa depara inevitavelmente com a classe trabalhadora. Nenhum estudo económico pode ser feito sem a ter em conta. Os conflitos que ocorrem nas relações de trabalho, desde os mais passivos e individuais até aos mais activos e colectivos visam, ou pelo menos têm como efeito, perturbar ou interromper o fluxo do tempo de trabalho. E as técnicas de administração visam, no fundamental, evitar ou antecipar as insatisfações e os movimentos reivindicativos, de modo que o tempo de trabalho possa fluir sem interrupções. É este o antagonismo interno que se verifica no tempo enquanto substância do capitalismo, e é neste plano que a classe trabalhadora manifesta permanentemente a sua existência.

    No plano sociológico, porém, a classe trabalhadora nunca conseguiu ter uma existência permanente. Os trabalhadores só tomam consciência da sua realidade enquanto classe quando enfrentam activamente a globalidade dos capitalistas. Só neste confronto a classe trabalhadora pode existir no plano sociológico.

    Em 1846-1848 a classe trabalhadora assumiu uma existência sociológica no âmbito europeu, desde as ilhas britânicas até ao sul da Itália, desde Portugal até à Polónia repartida. A classe trabalhadora voltou a assumir uma existência sociológica num âmbito mais vasto, incluindo toda a Europa e os Estados Unidos, desde os anos finais da primeira guerra mundial até ao início da década de 1920. Mais recentemente, e já num âmbito mundial, a classe trabalhadora assumiu de novo uma existência sociológica desde a década de 1960 até à década de 1980. Poucos sabem hoje, ou desejam recordar, mas foi então que nós estivemos à beira de vencer, como escrevi em «Epílogo e prefácio (um testemunho presencial)».

    Nessa época o capitalismo estava enleado na última das suas crises económicas estruturais, e a unificação internacional da classe trabalhadora no plano sociológico parecia tornar iminente a conversão dessa crise estrutural numa crise terminal. Mas a situação inverteu-se, e nas últimas décadas um capitalismo globalizado manipula sem grandes dificuldades os trabalhadores fragmentados e dispersos. «O capitalismo pressupõe a produção de especialistas e a balcanização do conhecimento», salientou Paul Morrison; «a eliminação ou demonização de qualquer perspectiva global pode apenas servir os interesses de uma ordem económica que ela própria se define pelo globalismo» (The Poetics of Fascism. Ezra Pound, T. S. Eliot, Paul de Man. Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1996, pág. 14). Hoje a classe trabalhadora não existe no plano sociológico.

    A hegemonia adquirida pelos identitarismos no plano sociológico e ideológico é a expressão directa do desaparecimento da classe trabalhadora nesse plano. Esta hegemonia é tão completa que a esquerda — ou aquilo a que a desnaturação do vocabulário continua a chamar esquerda — apresenta os trabalhadores como uma outra identidade, que eventualmente se pode acoplar às demais. O desaparecimento sociológico e ideológico dos trabalhadores enquanto classe e a sua inserção no xadrez das identidades representa a maior vitória do identitarismo.

    A afirmação de identidades reproduz todos os vícios do nacionalismo. Tal como Paul Valéry preveniu em 1931, numa época em que os nacionalismos se tornavam deveras ameaçadores, «A História é o produto mais perigoso que a química do cérebro elaborou. As suas propriedades são bem conhecidas. Faz sonhar, embriaga os povos, gera-lhes falsas memórias, exagera-lhes os reflexos, nutre-lhes as velhas mágoas, atormenta-os no repouso, condu-los ao delírio das grandezas ou ao da perseguição e torna as nações amargas, arrogantes, insuportáveis e vaidosas» (Regards sur le Monde Actuel et autres Essais. Paris: Gallimard, 1945, pág. 27). Tudo isto se pode hoje dizer acerca do identitarismo.

    Mas os nacionalismos, pelo menos, referiam-se a fronteiras fixas, enquanto as identidades, reais ou presumidas, projectam a sua histeria em horizontes indefinidos, já que se reivindicam de limites fluidos, sobreponíveis e, aliás, subjectivos. E assim como o nacionalismo assumiu as formas mais extremas — e também mais delirantes — no racismo, em que numa dança de roda se passava dos aspectos culturais para os biológicos e dos biológicos para os culturais, também os identitarismos fazem o mesmo, tanto os de género como os de cor de pele ou de sexo ou de qualquer outra coisa. Há já muitos anos eu mostrei que a oscilação entre biologia e cultura no nacional-socialismo tem uma estreita afinidade com idêntica oscilação característica da forma moderna de feminismo. O mesmo se deve dizer de um movimento negro capaz de defender que «Miscigenação também é genocídio» e que invoca os fenótipos com o mesmo afã com que os invocaram os cultores das raças. Os identitarismos reproduzem não só as formas mais perversas do nacionalismo, mas também a forma mais perversa dos fascismos, o racismo nacional-socialista.

    Todavia, o aspecto principal que as novas identidades têm em comum com o velho nacionalismo é o carácter supraclassista. Enquanto que a afirmação da classe trabalhadora no plano sociológico rompe, ou visa romper, a sociedade horizontalmente, marcando com clareza a clivagem entre os que produzem mais-valia e os que se apropriam dela, o nacionalismo e o identitarismo reúnem trabalhadores e capitalistas em torno de um mito comum, ou geográfico ou cultural e biológico.

    Ora, qualquer forma de união entre exploradores e explorados tem como efeito imediato consolidar o processo de exploração. A história mostrou-o abundantemente no caso dos nacionalismos. No caso dos identitarismos verificamos o mesmo resultado com a política de cotas, que mobiliza massas de pessoas de uma dada identidade, ou presumida identidade, para promover a ascensão social de um número reduzido dessas pessoas, convertendo-as em nova elite ou inserindo-as na elite já existente. Assim como a expansão territorial obtida por meios militares era o resultado lógico dos nacionalismos, a promoção de elites graças à política de cotas é o resultado lógico dos identitarismos.

    É certo que na vida corrente as coisas aparecem confusas, nos conflitos do dia-a-dia, na convivência das cervejarias. Quem se limite a viver no meio da confusão não sabe desembaraçar-se das dificuldades. Mas a função da ciência, e do seu equivalente na política, é precisamente a de simplificar e cortar a direito. O problema é que hoje praticamente só existem dois tipos de marxismo: o marxismo pré-galilaico e o marxismo esponja.

    Quanto ao primeiro, tal como os opositores de Galileo se recusavam a espreitar pela luneta para ver os satélites de Júpiter e continuavam fiéis à cosmografia grega, também estes marxistas se recusam a ver as estatísticas e bastam-lhes os textos do mestre. Desapareceram assim do reino dos vivos e foram para o museu das múmias.

    O marxismo esponja, por seu lado, absorve tudo aquilo que as marés lhe trazem. A operação vocabular é simples, colando-se o adjectivo «marxista» a qualquer tipo de identitarismo. A operação política é mais complicada, porém, e tem os mesmos efeitos que teve, entre as duas guerras mundiais, a colagem do marxismo aos nacionalismos, que por um lado precipitou massas trabalhadoras em apoio ao fascismo, e por outro lado apressou a degenerescência extrema do marxismo que foi o stalinismo.

    Hoje, quando se trata de começar, a partir do seu nível mais baixo, um novo ciclo de lutas, é indispensável distinguir a política de classe e a política de identidades, sem supor que uma possa aliar-se à outra.

    O artigo foi ilustrado com máscaras da coleção do Museu Nacional de Etnologia (Portugal).

  • 2019-05-14T09:10:04Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Destaques Perseguição na Livraria Cultura em Olinda

    Perseguição na Livraria Cultura em Olinda

    https://passapalavra.info/2019/05/126386/

    Um amigo chegou a dizer, emocionado ao chegar em uma das lindas lojas, que parecia um império. E é, a seu modo, e como todo império, sobrevive a custa do suor e da dor dos seus.

    02/05/2019

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    Por Olindo do Rato

    Filho de Olinda e com a ausência de livrarias na cidade tive a oportunidade de acompanhar a abertura da primeira loja da Livraria Cultura em Pernambuco, no bairro do Recife Antigo, ainda na adolescência, em 2004. Quando cheguei aos 18 passei a deixar pelo menos um currículo por mês. Foram quatro entrevistas em alguns anos até conseguir entrar na loja recém inaugurada no Shopping RioMar. Era março de 2013 e enfim um antigo sonho se realizava. Infelizmente.

    Logo no primeiro ano fui escolhido para ser “representante de loja”, o que me deixava responsável pela livraria na ausência dos gerentes. Isso possibilitou uma troca maior com outros funcionários, inclusive de outras lojas. Acompanhei a situação da demissão em massa ocorrida na loja de Curitiba. Quando vi o email intui que nossa chefia não deixaria barato. Não deixou. Naquele mesmo dia 18 pessoas foram demitidas, salvo engano, duas delas trabalhavam comigo em Recife, a milhares de quilômetros da loja de Curitiba, e apenas o fato de terem respondido o email mostrando solidariedade com a colega de trabalho lhes custaram o emprego.

    A função de representante de loja não aumentava nem um real no meu salário, mas me dava a dinamica de “flutuar” entre as sessões, lendo um pouco de quase tudo. Teve aquele mês que me colocaram na sessão de livros de direito. Não deu outra, curioso que era passei a ler sobre leis trabalhistas e vi que apesar das lojas serem lindas tinha muita coisa errada: acúmulo de funções, não pagamento de horas extras e o famigerado banco de horas.

    Na ocasião tínhamos uma por semana e um domingo de folga a cada três trabalhados. Comecei a perceber a partir daí algumas irregularidades e a trazer essas questões para as reuniões com os gerentes e equipe. Segundo o Sindicato dos Comerciários a cada dois domingos trabalhados o terceiro deveria ser de folga e era muito comum trabalharmos o primeiro domingo do mês e folgarmos só no último domingo do mês seguinte, somando seis domingos trabalhados seguidamente. Os gerentes na ocasião, Cássio Renovato e Carlos Dantas, defendendo os interesses exclusivos da empresa, não gostaram das minhas perguntas e passaram a efetuar uma onda de ataques pessoais a mim e a todos e todas colegas de trabalho que tinham alguma relação próxima comigo. Alguns permaneceram ao meu lado, outros não. Cada um faz suas escolhas para não passar fome.

    Na loja, entupida de câmeras de segurança, apenas uma sala era livre de fiscalização: a sala do RH. Lá, por repetidas e incontáveis vezes, Cássio e Carlos me chamavam e na segurança de que não seriam denunciados me diminuíam enquanto trabalhador e ser humano e verbalizavam com todas as letras que fariam da minha vida um inferno até que eu pedisse demissão, que me fariam sair da livraria sem nenhum dos meus direitos, sob a acusação de que eu queria tumultuar o ambiente de trabalho e que se não estava satisfeito deveria sair.

    Pelo menos uma vez por semana era chamado nessa sala e passei a entrar com o gravador do celular ligado. Uma vez quiseram me dar uma advertência escrita porque voltei atrasado da hora do almoço por 10 minutos. Qualquer advertência fazia com que o funcionário em questão perdesse o direito a comissão do respectivo mês. Me recusei a assinar e eles me ameaçaram com outra advertência. Me limitei a dizer que seria apenas gasto de papel e tinta, que não assinaria igual, o que os deixou furiosos.

    Na livraria eu organizava o Clube de Leitura, uma parceria com a Companhia das Letras. Pelo menos uma vez por ano a Companhia organizava um encontro com os organizadores do Clube num grande encontro que acontecia em São Paulo, com passagem e estadia pagos pela editora. Porém Cássio, o primeiro gerente, entrou em contato com a Companhia para dizer que eu não iria porque minha presença era necessária na loja. Minha passagem de ida e volta, que já havia sido comprada pela Companhia das Letras, foram canceladas. Pessoalmente ele me lembrou que faria da minha vida um inferno e que se eu não pedisse demissão as coisas só iriam piorar para o meu lado.

    As constantes ameaças, perseguição e assédio me fizeram procurar uma advogada que me aconselhou juridicamente, e com seu auxílio enviei um e-mail para Sérgio Herz, presidente e herdeiro da Livraria Cultura, relatando as violências cada vez mais corriqueiras. Logo em seguida entrei com uma ação judicial contra a livraria.

    Nos últimos meses de trabalho desenvolvi crise do pânico e ansiedade. Não tinha paz ou qualquer tipo de contentamento dentro daquele lugar, apesar das lojas serem lindas. Tinha pesadelos em que me encontrava na sala do RH e era espancado por Cássio e Carlos. Comecei a fazer terapia e fui diagnosticado com depressão.

    Duas semanas depois do meu e-mail o coordenador dos gerentes de toda a rede veio pessoalmente conversar com Cássio e disse que ele teria que demitir Carlos, seu subgerente e amigo. Logo em seguida o próprio Cássio foi demitido. Os dois foram levados pelos seguranças para fora da loja pela porta dos fundos. Porém nenhuma ação de reparação aos danos causados foram feitos e fui demitido por “justa causa”.

    Na justiça se provou o que Sérgio Herz verbalizava em cada reunião que participava: que os seus contatos com juízes e sindicatos garantiriam o ganho para a empresa. Três anos de processo na justiça do trabalho (que deveria ser chamada de justiça do patrão) deram ganho de causa para a livraria, desconsiderando testemunhos e laudo médico comprovando os danos causados a minha saúde mental. Sai como Cássio e Carlos sempre falaram que eu sairia: com uma mão na frente e a outra atrás.

    A cultura da livraria, apesar das lindas lojas, é a exploração dos seus trabalhadores e assédio moral. Um amigo chegou a dizer, emocionado ao chegar em uma das lindas lojas, que parecia um império. E é, a seu modo, e como todo império, sobrevive a custa do suor e da dor dos seus. Se é um império então que siga o exemplo dos outros que o antecederam e que encontre sua ruína, não ficando pedra sobre pedra.

  • 2019-05-14T08:54:34Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Achados & Perdidos Trabalhadora de loja de shopping

    Trabalhadora de loja de shopping

    https://passapalavra.info/2019/04/126378/

    Isso cria um ambiente escroto onde todo mundo passa a perna em todo mundo, ninguém é amigo de ninguém e geral te esfaqueia pelas costas. Quando cliente reservava peça e vinha buscar no horário que a pessoa que lhe atendeu não estava, minha nossa senhora. Era dedo no cu e gritaria.

    29/04/2019

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    Por Débora Nisenbaum

    Esse Achado & Perdido faz parte do dossiê “Causos de trabalho”: uma seleção, feita pelo Passa Palavra, de threads relatando o cotidiano e curiosidades de diferentes trabalhadores.

    Todo mundo [está] muito surpreso com as paradas da Livraria Cultura só porque o consumidor médio de lá nunca trabalhou no varejo. O varejo é um inferno e vou contar aqui alguns episódios de trabalhar em loja, não são nem de longe os mais escabrosos que já ouvi.

    Fui procurar meu primeiro emprego aos 18 anos, tive esse privilégio. Como não tinha experiência nenhuma, fui pro shopping e saí entregando currículo. Consegui emprego numa loja de roupas caras, dessas que vende casaco de pele (vendia, na época) e as brusinha (2010) custavam R$ 150. Eles aceitam qualquer pessoa mesmo sem saber se você é bom com [atendimento ao] público, se você atende bem, etc. Não porque eles fornecem treinamento, mas porque a rotatividade é alta o suficiente pra um funcionário ruim em piso de loja não machucar o lucro.

    Bom, comecei meu trampo e tudo ali me parecia contraintuitivo, começando pela comissão individual e o sistema de “vez”.  Pra quem não sabe, em 90% do varejo, quando você entra na loja alguém está “na vez”. É a vez dessa pessoa de atender. Se você não leva nada, ela perde a vez.

    E tem regras esdrúxulas tipo: se ela [o cliente] só perguntar de um item, mas não mexer em nada, você não perde a vez e pode atender o próximo cliente. Foi pro banheiro? Perdeu a vez. O cliente passou 15 segundos na loja, mas mexeu numa jaqueta? Perdeu a vez. Numa segunda-feira quando entram 10 pessoas na loja o dia inteiro, cada vez é sua chance de bater sua meta diária.

    É, tem meta individual diária e [meta] mensal de venda. Isso cria um ambiente escroto onde todo mundo passa a perna em todo mundo, ninguém é amigo de ninguém e geral te esfaqueia pelas costas. Quando cliente reservava peça e vinha buscar no horário que a pessoa que lhe atendeu não estava, minha nossa senhora. Era dedo no cu e gritaria. Cansei de ver vendedor escondendo peça pro outro não roubar venda. Rolava briga feia.

    Ah, o esquema de trabalho era 6×1. Trabalha 6 dias, folga 1. Dois domingos por mês de folga. Não existia folga de sábado. Simplesmente não existia. Era o dia mais cheio e todo mundo queria estar na loja pra vender e bater meta. Sábado tinha meta de 10 mil por pessoa.

    O salário era o mínimo da época (uns 700 conto) + 3% do que você vendeu. Ah, e só recebia comissão SE vendesse acima de R$ 20 mil. Vendeu R$ 21 mil? Parabéns, ganhou comissão. Vendeu R$ 19 mil? Sinto muito. As metas geralmente eram R$ 40 mil, por aí.

    Ou seja, você ficou lá, trabalhou o mesmo tanto de horas [dos demais trabalhadores]. Mas às vezes tu não tem o conhecimento de um vendedor mais experiente, não tem cliente habitué, só pegou uns caroços o mês inteiro, geral passava a perna em você na loja, se fodeu. Trabalhou igual? Sim. Mas ganhou menos.

    Nessa loja em particular os gerentes faziam a gente comprar as roupas pra usar como uniforme, o que é crime. A gente tinha 40% de desconto de funcionário e eles tratavam isso como um puta favor que a loja estava fazendo por nós. Porque né, você tem que usar as roupas da marca pro cliente achar bonito e querer comprar também. E se não estava usando pelo menos uma peça da loja, era bronca. Agora lembra que as brusinha custava 150 conto? E a gente ganhava R$ 700 sem comissão? Vê se cabe no orçamento isso. E tome na orelha dos gerentes por vir com roupa “de fora”.

    Um belo dia o estoquista pediu demissão e obviamente nas semanas seguintes a loja começou a virar um caos. Pilhas desarrumadas pelo estoque, ninguém achava tamanho de merda nenhuma, geral pisando em saco de roupa no estoque pra conseguir entrar lá. Minha gerente teve a brilhante ideia de mandar todo mundo passar a madrugada inteira arrumando o estoque. Detalhe: tinha nem banco de horas. Não recebíamos hora extra. Não deram folga pra compensar nem nada. O povo ficou lá até duas da manhã e eu fui pro sossego do meu lar. Falei pra minha gerente:

    Maria, faz as contas comigo. Esse mês a gente vendeu mais de R$ 200 mil pra essa marca. Tira os nossos salários, ainda sobra mais de R$ 180 mil. Tu acha MERMO que o dono dessa merda não tem 750 conto pra pagar um estoquista? Ele tá pouco se fodendo pra você, pra mim, pra todo mundo. Se tu vai ter que dormir na loja porque o metro já fechou e a linha que chega na tua casa não tem noturno, ele está POUCO SE FODENDO de dentro do Porsche dele. Deixa essa merda explodir e vir a supervisão aqui na loja, aí tu pede pela vigésima vez um estoquista.

    18 anos, mas consciência de classe sempre tive (risos).

    Não adiantou nada, geral ficou, eu me retirei porque ameacei processar ela e a marca de me segurar lá depois das 22:30. Teve também o sábado em que a loja FERVEU. Sério, ferveu e cada vendedor atendendo umas 3 pessoas diferentes. Aí quando foi embora aquele rebuliço, vimos que 2 peças tinham sumido da arara de catálogo (onde ficavam as peças mais caras da coleção). Dois coletes de pele de coelho, R$700 cada um. A gerente veio soltando fogo pelas ventas pra cima de todos nós. Berrando mermo:

    — Como que vocês deixam isso acontecer? Vocês não são pagos pra isso!

    — Ué, mas era pra ter tocado o alarme da peça, é impossível tirar.

    — O alarme tá desligado.

    — Então pede pra ver a filmagem de segurança.

    — As câmeras são de mentira.

    Queria descontar do nosso salário. Eu a mandei tentar. Porque eu entrava com processo. A loja cagando pro sistema de segurança, tudo desativado ou de mentira, mas a culpa e os berros e o abuso moral vinham pra cima dos fodidos que estavam ajudando a dondoca a escolher calça jeans enquanto outra dondoca roubou a peça…

    Ah, esqueci de falar dos benefícios! Como todo mundo sabe, vale-transporte desconta do salário. E nosso vale refeição era de 40 quarenta – Q U A R E N T A – reais por mês. Não dava nem pra comprar uma coxinha por dia.

    Vou nem comentar quantas vezes eu fui assediada em horário de trabalho e meus gerentes fizeram nada pra me ajudar ou me defender, mas tinha cliente que eu via chegando e me escondia no estoque até ir embora. Perdia vez, perdia venda, perdia tudo, mas não conseguia passar pela humilhação.

    Daniel Matos lembrou uma parada importante: era trabalhar o dia inteirinho em pé. Não pode sentar. Não pode encostar no balcão. NADA. Eu que sempre tive problema de microvarizes às vezes ia pro banheiro pra ficar 10 minutos sentada.

    O discurso meritocracia reinava o tempo todo. Se não batia meta era porque não se esforçava. Se PV não era 5 é porque não se esforçava. Se não queria fazer hora extra de graça pra bater meta era porque não se esforçava. Se faltava funcionário e estava tudo uma zona era porque não se esforçava.

    Os gerentes diziam que DAVAM A OPORTUNIDADE de a gente trabalhar fora do horário pra bater meta. E veja, eram pessoas simples. Gente nova, gente que o sonho era fazer uma faculdade. Esse discurso idiota vinha todo de cima, era vendido um sonho impossível e a galera comprava.

    Porque se um dia você se esforçar o suficiente, pode alcançar a gerência e aí sim, ganhar 2 [mil] conto e levar na orelha não de um gerente, mas sim de um supervisor… Fiquei 6 meses nessa loja e me arrependo demais de não ter entrado com processo trabalhista.

    Não bastasse trabalhar pra empresário babaca encher o cu de dinheiro, tinha cliente babaca que chegava com peça de dois anos atrás querendo trocar e ainda ficava puto que não podia. Gente que vinha trocar peça de 1500 reais obviamente roubada… Era foda.

    Sei lá, espero que quem leia isso aqui pense trinta vezes antes de ser grosso com um trabalhador do varejo. Se lembrar de mais absurdos eu posto depois.

    Ah, eu acho importante ressaltar que eu fiquei 6 meses lá e, assim, tem MUITA coisa pior rolando no mercado de trabalho, tá? A galera do telemarketing se fode MUITO mais. Sei que é um saco, mas sejam no mínimo simpáticos com a galera, não é culpa deles que eles tem que te vender cartão.

    Às vezes a gente está aqui no conforto do nosso lar recebendo ligação de alguém que passa o dia todo num cubículo ligando pra estranhos, ouvindo merda pra ganhar um salário de bosta. Todo mundo está lutando uma batalha que você não conhece, e com a precarização do trabalho SÓ VAI PIORAR!

  • 2019-05-14T08:53:58Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Movimentos em Luta 22 de abril 2019 Carta de Ola Bini

    22 de abril 2019 [Mundo] Carta de Ola Bini

    https://passapalavra.info/2019/04/126218/

    "Tenho certeza que sairei livre"

    22/04/2019

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    Por Ola Bini

    Publicada originalmente no freeolabini.org

    1. Primeiro quero agradecer a todos e todas que têm me apoiado. Me foi dito sobre a atenção que o caso recebeu no mundo e agradecer é o mínimo que posso fazer. A meus amigos e amigas, família e pessoas que estão perto todo meu amor, estou pensando muito em vocês.

    2. Eu creio fortemente no direito a privacidade, sem privacidade não podemos ter liberdade, sem privacidade somos escravos. Por isso tenho dedicado minha vida a essa luta. A vigilância é uma ameaça a todos nós, temos que pará-la.

    3. Os líderes do mundo estão lutando uma guerra contra o conhecimento. O caso contra mim é baseado em todos os livros que tenho lido e a tecnologia que tenho. Isso seria um crime de pensamento “criminal” na obra de Orwell. Não podemos deixar que isso passe. O mundo vai nos encurralar mais e mais, até que não tenhamos nada. Se o Equador pode fazer isso, outros governos também farão. Temos que parar essa ideia agora, antes que seja tarde mais.

    4. Tenho a confiança que sairei, é óbvio que não tem fundamento que sustente esse caso e logo será derrubado.

    5. Não posso deixar de comentar sobre o sistema penal do Equador. Eu tenho as melhores circunstâncias e ainda assim é desprezível. Tem que haver sérias mudanças. Penso muito nos outros presos do Equador.

  • 2019-05-14T08:53:27Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Movimentos em Luta 27 de março de 2019 Estudantes da EE Gracinda de Lourdes...

    27 de março de 2019 [GO] Estudantes da EE Gracinda de Lourdes contra a repressão na escola

    https://passapalavra.info/2019/03/125776/

    Estudantes de Escola Estadual em Goiânia se reuniram na porta da escola em protesto contra as EXAGERADAS proibições da gestão da escola.

    27/03/2019

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    Por Estudantes da EE Gracinda de Lourdes

    Estudantes de Escola Estadual em Goiânia se reuniram na porta da escola em protesto contra as EXAGERADAS proibições da gestão da escola. Proibidos de utilizarem o celular em qualquer momento dentro da escola; ter no uniforme calça jeans SOMENTE azul; proibidos de saírem das salas em qualquer momento que não seja o SEGUNDO e QUINTO horário. Essas proibições aumentam e muito a tensão dentro da escola além de constantes furtos que aconteceram recentemente sem solução nenhuma. A escola deve ser um local agradável e de formação; mas vivemos reprimidos por qualquer motivo!! Queremos ser ouvidos! Escola não é prisão!!!!!

     

  • 2019-05-14T08:52:27Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Pensar Ideias & Debates Contra o corporativismo masculino branco

    Contra o corporativismo masculino branco

    https://passapalavra.info/2019/04/126231/

    Talvez a melhor virtude seja a capacidade de dar potência e vida a espaços de organização, sem que se venha a ocupar neles uma centralidade personalista.

    25/04/2019

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    Por Aparentemente um homem

    Identifico como o grande problema da hegemonia identitarista o seu aspecto corporativo. E isso é muito, pois o que vemos é a regressão das ideias políticas a uma defesa quase feudal de nichos populacionais supraclassistas. Uma verdadeira tática de mobilização coletiva dentro do quadro de guerra de todos contra todos, com toda a tragédia latente que isso historicamente significou.

    Pois bem, muito tem sido discutido e criticado dentro do campo identitário, como uma reação saudável e não por isso menos violenta ao surgimento de novas expressões de velhas ideias. Tanto os atores políticos que se sentem alheios às políticas identitárias, como aqueles imersos num ambiente fortemente associado às identidades, mas críticos de suas tendências liberais ou nacionalistas, têm realizado esforços duros e desgastantes para criticar, denunciar e marcar diferenças. Isso é bom, pois o conflito é produtivo na política. Mas como nas contradições, existem saídas boas e saídas más.

    É importante avançar rápido sobre certas questões. A organização social de mulheres e dissidências sexuais, de negros e negras, e de qualquer outro setor social que hoje encontra chão comum para associar-se e realizar lutas coletivas, é não apenas importante mas essencial para o avanço da luta de classes. Estamos falando de setores que são estruturalmente explorados nas piores condições dentro do capitalismo brasileiro, em consonância com o que ocorre na maior parte do planeta. E não é apenas isso. Os problemas que estes setores enfrentam para levar adiante suas lutas não diferem essencialmente dos problemas históricos do movimento proletário: a dificuldade de mobilização das bases, o problema da transformação de líderes em especialistas, a absorção de pautas e aparelhos pelas estruturas do Estado, a política como método de ascensão social de proletárixs que ingressam na classe gestora.OLYMPUS DIGITAL CAMERA

    Tendo isso tudo claro, desistir ou ignorar as lutas não é uma opção. Não se trata de escolher as melhores lutas, mas sim de poder entender a relação entre os conteúdos e as formas de luta, bem como as ideologias a elas associadas.

    O corporativismo identitário promove uma igualação de todas as posições a respeito das mulheres, de todas as posições a respeito dxs negrxs, etc, sob os conceitos próprios de cada identidade. Qualquer crítica à uma posição política a respeito das mulheres pode ser acusada de machista, estejamos, por exemplo, contra ou a favor de encarar as prostitutas como trabalhadoras. Qualquer crítica à uma posição política do movimento negro pode ser encarada como racista, estejamos, por exemplo, contra ou a favor da exclusividade dos turbantes. Pois o discurso identitário reivindica para si todo o espectro político, à direita e à esquerda, e é contrário a bandeiras que possam a dividir suas bases sociais.

    Mas a solução para isso não é somar palavras, como se o discurso tivesse efeitos mágicos de transformar “feminismo” em “anticapitalista” por adição. Nem isso é desejável, pois é saudável que se trate de duas coisas diferentes e com lógicas particulares (históricas) de se relacionar. De fato, é negativa certa estratégia de colocar “patriarcado” e “capitalismo” como problemas análogos e de igual importância, pois no afã de ressaltar a importância da militância feminista e fazer a crítica ao marxismo ortodoxo, perde-se a especificidade de cada questão, como se fossem simplesmente duas frentes de batalha de uma série quase interminável de semelhanças (racismo, especismo, capacitismo, capitalismo, etc.)

    Mas se a luta é contra o corporativismo, também devemos encarar o corporativismo masculino branco. Para combatê-lo o primeiro passo é não disfarçar a crítica com culpa masculina, que é a saída dos subjugáveis ou dos cínicos. Também não devemos entender o problema de forma terceiro-mundista, como se a identidade branca masculina explorasse as demais identidades. Tampouco confundir corporativismo masculino branco com supremacismo branco. Estes últimos reivindicam abertamente posições políticas sofisticadas, incluindo a noção de Estado Étnico, uma sociedade abertamente conservadora, enfim, não se limitam a reclamar por direitos setoriais ou obter lugares de representatividade institucional. Este fenômeno é extremamente preocupante e está em alguma medida relacionado com o corporativismo branco masculino, mas é um desenvolvimento muito mais político e ideológico, que ultrapassa o que quero tratar aqui.

    O segundo passo para combater o corporativismo masculino branco é entender que ele é muito mais sutil do que uma posição política. Afinal, é o que vínhamos expondo como modus operandi de outros corporativismos, isto é, a indefinição das posições políticas como fundamento. Então é necessário definir as posições políticas por detrás de uma crítica, para poder não cair em uma defesa corporativa como as mencionadas anteriormente.

    Então, como homens brancos, nos dirigem uma crítica política ou identitária? Esta última parte da própria lógica corporativa, então ela não é capaz de criticar o corporativismo masculino branco. Uma crítica política feita a uma prática ou discurso, ela sim tem a capacidade de ir a fundo na denúncia de um corporativismo masculino branco.

    Mas então caímos em uma armadilha. O poder de definir o que é e o que não é uma crítica política é moeda corrente nas formas de exercer poderes em grupos e coletivos, e está especialmente associado a homens brancos. Um desentendimento entre companheiras é “uma briga pessoal” que atrapalha a organização, a necessidade de dar tempo e espaço para escutar outras vozes é “perda de tempo”, os grandes temas nacionais e globais urgem enquanto que os vínculos humanos são substituíveis. Enfim, prima a selvageria das pequenas lideranças.

    Não é por acaso que muitos grupos “políticos” são formados quase inteiramente por homens brancos, assíduos em reuniões e prolíficos em discursos. E vejam bem, não será um pouco a essa imagem e semelhança que se estruturam tantos coletivos identitários, com seus e suas militantes mais ativas habitando reunião atrás de reunião, dando discursos firmes e demostrando sem lugar a dúvidas a necessidade de tal ou qual ação?

    Não quero passar por cima da necessária crítica ideológica. E acredito que a esta altura estamos bem fornidos de críticas internas às ideologias hegemônicas feministas e africanistas – críticas que existem há muitos anos. Mas estas críticas nunca serão suficientes. Entendo que muitxs militantes podem se sentir atraídxs por certa autoimagem oferecida por tais ideologias, assim como um homem branco pode sentir-se mais importante, ou com mais sentido em sua vida, ao carregar uma bandeira vermelha e negra em uma manifestação, ao vencer uma discussão sobre os meandros da revolução russa (ao citar autoras feministas, ao escutar rap nacional, etc). No entanto, o verdadeiro campo de batalha contra estas formas ideológicas está no âmbito das práticas.

    Enquanto homens brancos, podemos ter as melhores intenções do mundo. Mas é necessário mais do que intenções. Um espaço onde as vozes treinadas por instituições de ensino e pela cultura patriarcal têm mais tempo, mais valor, tendencialmente se torna um espaço fértil para o domínio de homens brancos. E isso é ruim por dois motivos: em primeiro lugar, xs companheirxs não-homens e não-brancos mais inteligentes rapidamente abandonarão este espaço para não perder seu tempo precioso. Em segundo lugar, porque estas vozes treinadas não necessariamente expressam as melhores qualidades de liderança, não necessariamente trazem um conteúdo mais rico e mais importante para o coletivo. Uma liderança se constrói por respeito e referência, por meio do exemplo prático ou pela capacidade de propor soluções, entre outras qualidades, e não por truques, insistências e subterfúgios retóricos, como o são a interrupção constante de interlocutorxs, a diminuição retórica de ideias alheias (e seus/suas porta-vozes), a naturalização de falas longas ou da falta de intervenção de companheirxs, a constante explicação de como são as coisas, a definição taxativa e muitas vezes soberba sobre outras posições (e os ataques indiretos a todxs aquelxs que se aproximem delas), etc.

    É urgente que possamos ter uma diversidade minimamente próxima à do contexto social em que vivemos não apenas em nossos espaços de organização, mas exercendo funções de liderança nestes mesmos espaços, uma vez que não existem líderes naturais. Afinal, sempre foi esse o norte que guiou práticas como a revocabilidade e a rotação de tarefas e cargos: ou por acaso acreditamos que uma raça ou sexo é imanentemente superior ao outro e por isso se vê justificado que na história do movimento proletário a imensa maioria dos teóricos e das lideranças repete um mesmo padrão? Uma vez mais, as intenções não bastam. Não podemos instituir uma horizontalidade artificial, que tem nas cotas partidárias e parlamentares a sua forma acabada. De fato, a horizontalidade artificial é talvez a melhor expressão da ideologia gestora e o ambiente mais propício para a formação incipiente de hierarquias tecnocráticas. Não apenas os carreiristas se sentem como peixes dentro d’água em espaços artificialmente horizontais, misturando-se com companheiros e companheiras honestas e manipulando por meio das informalidades que já conhecemos, como também reivindicam estes valores no momento em que são questionados por suas práticas escusas. “Não existe chefe” e “a culpa é de todos” são formas muito sofisticadas de escapar de qualquer responsabilidade por atos vis, enquanto que os “princípios políticos” podem ser flexibilizados e moldados de acordo com a ocasião. Por sua vez, esse perfil de especialistas em reuniões, que deu origem inclusive ao termo “burocracia”, se aproveita da dedicação militante de todos e todas aquelas que se sentem confortáveis em “ambientes horizontais”, fenômeno que podemos ver nas formas contemporâneas de exploração desde o toyotismo fabril até os coletivos e start-ups tecnológicos. Trabalhar sem um chefe tradicional pode aumentar e muito a produtividade, seja de operários, seja de militantes.

    Agora, a revocabilidade e a rotação de funções são justamente o que combate a cristalização de hierarquias informais e a dependência de companheiros específicos: a imprescindibilidade de tal ou qual camarada sempre aponta a uma deficiência e à potencial personalização de uma organização. Isso quer dizer que o nosso desafio ao combater o corporativismo masculino branco, assim como qualquer outro corporativismo, é dinamizar e circular os saberes, as técnicas e as habilidades necessárias para que qualquer proletárix possa atuar como agitadorx e organizadorx. Isso demanda uma série de capacidades que dificilmente encontraremos em uma só pessoa, e no entanto deveriam ser estimuladas de forma integral para qualquer militante. Habilidades de vinculação social por um lado e formação teórica por outra. Práticas clandestinas por um lado e conhecimentos estatutários por outro. Iniciativa e criatividade por um lado, paciência por outro. Força física por um lado, cuidado emocional por outro.

    Infelizmente nossa sociedade estimula os homens brancos a carregar praticamente todas estas habilidades, especialmente as que demandam performances públicas, enquanto que séculos de tradição têm feito, por exemplo, com que mulheres tenham perfis mais recatados, séculos de escravidão têm feito que negros e negras tenham menor treino em situações formais de oratória. A opressão histórica é reproduzida cotidianamente na formação das novas forças de trabalho, podemos ver isso no avanço da formação integral para crianças nascidas no seio da classe gestora (com menor distinção de gênero ou cor de pele) ao tempo em que a formação das crianças da classe trabalhadora parece estar sofrendo um recrudescimento, da mão de militares e de religiosos.

    Para combater o corporativismo masculino branco é necessário constantemente fazer um cálculo sem resultado exato: a medida correta para não ocupar demasiado os espaços, sem com isso abandonar os projetos e as propostas. Uma resposta fácil e ressentida a este tipo de situação é abrir mão dos espaços, “que então façam tudo sem mim”. Mas talvez a melhor virtude de qualquer organizadorx é a capacidade de dar potência e vida a espaços de organização, sem que se venha a ocupar neles uma centralidade personalista. Que estes espaços deem frutos e sirvam para formar novos e novas organizadoras, que por sua vez tenham a capacidade de criar novos espaços em outros territórios, por meio de iniciativas próprias, com a capacidade autônoma de fazer análise de conjunturas, de planejar ações, de caracterizar camaradas e outras organizações, escrever materiais, vencer lutas ou perdê-las da melhor forma possível. Acredito que esta é a morte do corporativismo masculino branco.

    Ilustram esse artigo imagens do Artista Plástico Elvis da Silva

  • 2019-05-14T08:51:55Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Pensar Ideias & Debates Dois e-mails sobre fascismo, “maioria silenciosa” conservadora e sátira

    Dois e-mails sobre fascismo, “maioria silenciosa” conservadora e sátira

    https://passapalavra.info/2019/04/125842/

    A sátira tem o botão foda-se quebrado no “on”, e por isto mesmo não é de esquerda ou de direita; pelo contrário, é de quem sacanear primeiro.

    04/04/2019

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    Por Fulano e Beltrano

    Dois amigos correspondiam-se em torno de temas ligados à onda fascista global, e resolveram compartilhar as reflexões com um público mais amplo.

    FULANO

    Caro,

    estou aqui reunindo material pra ajudar num artigo e pra me ajudar a entender melhor o que o Rancière chama de “o homem democrático” (n’O Ódio à democracia), que é mais complicado que a ascensão do “homem comum” ou do cara tosco, Joselito Sem Noção, com moletão e camisa falsificada do Palmeiras em Brasília, e acabei sendo salvo por aquela sua assinatura no Foreign Affairs, onde não tava liberado pra geral a leitura desse artigo aqui do Jan-Werner Müller.

    Esse J-W Müller, um politólogo alemão, liberal, abaixa a bola do que somente na aparência (e como propaganda) seria uma onda nacionalista (Hungria, Turquia, EUA, Índia, Brasil,…) puxando a sardinha pra brasa dele, que é o populismo (seja de esquerda, como o chavismo, seja o de direita). E passa pelo tópico do “homem comum” quando ele fala do discurso de representação do que se considera “the real people” ou a maioria silenciosa — o que tem sido dito da nossa (suposta) maioria cristã e conservadora, anos e anos acuada e constrangida pelos globalismos e progressismos.

    Sobre a vitória eleitoral do Bolsonaro, Müller minimiza o apoio social a uma nova ditadura militar, apontando para o sucesso da campanha contra a corrupção das velhas elites políticas, contra o retorno do PT, além do apoio que teria tido do agronegócio, do empresariado industrial e financeiro, e de lideranças evangélicas.

    Representando não as maiorias silenciosas, e sim minorias bem barulhentas, “eles não chegam ao poder porque sua ideologia é uma força histórica mundial imparável. Pelo contrário, eles dependem da disposição da centro-direita a colaborar com eles — como foi o caso de Trump, Bolsonaro e dos defensores do Brexit — ou vencem pelo ocultamento de suas intenções, ainda que parcialmente, como foi o caso de Orban”.

    Depois de estarem instalados no governo, o que se tem de nacionalismo são pantomimas, “nos bastidores, esses líderes geralmente são bastante complacentes com instituições internacionais e corporações multinacionais. Eles estão menos preocupados em reafirmar genuinamente a autonomia de seus países do que em parecer fazê-lo”. E cita os governos de Trump e Orban.

    Achei interessante o que ele diz da mobilização populista do sentimento de falta de respeito que perpassa a largas parcelas da sociedade: “Em toda a Europa e Estados Unidos, jornalistas e analistas afirmam que muitas pessoas — especialmente pessoas brancas mais velhas — sentem-se desrespeitadas pelas elites. É difícil determinar quantas pessoas confrontaram-se diretamente com o desrespeito. Mas praticamente dia e noite — em programas de rádio, programas de notícias na TV e mídias sociais — é dito a milhões de pessoas que elas se sentem desrespeitadas. O que é rotineiramente apresentado como um conflito cultural entre centros rurais alegadamente autênticos e cidades cosmopolitas geralmente envolve uma luta muito menos dramática sobre como as oportunidades são distribuídas através de decisões regulatórias e infra-estruturais: do preço da passagem aérea para vôos para áreas mais remotas ao status dos bancos comunitários, passando pelas políticas que determinam o custo da habitação nas grandes cidades”.

    E assim a política (?) vai sendo alimentada de indignação, que é o sentimento furioso de quem se sente desrespeitado… Mas tem outro elemento aí que equilibra muito bem o “ódio” e o “rancor”. O personagem Bolsonaro é zuêro. Fazer arminha, falar de abraço hétero, desfilar de moletão, usar caneta BIC, não é só querer parecer com o seu tio, um cara comum. O elemento do humor não é marginal. Um programa que ajudou a fazer do Bolsonaro um personagem folclórico (ao lado do Clodovil e do Freddy Mercury prateado) foi o CQC, que misturava jornalismo-cidadão, indignação, e comédia rasgada. A ascensão dessa nova extrema-direita brasileira é contemporânea de toda uma nova geração de humoristas, e de uma fila grande de políticos humoristas. E aí aparece outro artigo mais fraquinho, mas interessante (pra esse não precisei de senha), de um jornalista e economista chamado Tej Parikh.

    Ucrânia, Eslovênia, Guatemala, Irlanda, Itália… todos têm no governo comediantes profissionais, e em vários outros países surgem candidaturas cômicas. Como o artigo diz, o humor é positivo, e a sátira é uma ferramenta de comunicação inteligente. É por aí que eu vou tentar puxar mais, pois a inteligência do humor é, de um modo geral, anárquica, anti-autoritária. Tem também a derrisão, que é um tipo de humor mais nervoso, mais controlado, associado ao desprezo, ao asco por alguém ou por algum grupo social, que parece mais uma risada por fora com um ódio profundo por dentro, ao contrário daquele riso que se espalha sem freios, mesmo quando o motivo é ridicularizar alguma coisa ou alguém, como a própria pessoa que faz a piada.

    De qualquer modo, você vai concordar que existe algo como um viés anti-autoridade que atravessa o movimento social da extrema-direita brasileira e talvez das outras. Nas brigas diárias dentro da reaçolândia não existe respeito a hierarquias, campos e instituições, os que são mais Paulo Guedes que Bolsonaro não têm papas na língua, há os que são mais Mourão e fazem o mesmo com os olavófilos, e por aí vai. É uma contradição já conhecida mas que pode ser desenvolvida: a propaganda de defesa de valores tradicionais (ou nacionais e nacionalistas) não tropeça só por hipocrisia, né? Basta preencher um a um esses valores — infância, família ou pátria — e a gente vê que seus propagandistas não têm autoridade ou credibilidade. Mas deve ser menos hipocrisia/maldade/sordidez e burrice/estupidez que imaturidade democrática, trazendo um pouco aqui o Rancière, que fala de “reino monstruoso da adolescência”. A maldade e a estupidez são figuras muito antigas dos confrontos políticos, muitíssimo antes de comunistas malvados comerem criancinhas e do Lula falar menas laranja. E essa imaturidade no campo da política — que resgata a política mais como luta que como gestão, trazendo o Paulo Arantes — é uma “maturidade” no campo mercantil, de tal modo que pro Rancière o “homem democrático” é o indivíduo consumista, uma atualização do antigo burguês do Manifesto Comunista, que quer fazer de todos os ofícios (juízes, sacerdotes, poetas, médicos, sábios) seus servidores assalariados, na medida em que pode pagar por isso e que paga. A gente pode pensar nessa galera dizendo que tá cagando pra PSL e pra qualquer partido, que votou mesmo é no Bolsonaro. Eles “pagaram” por algumas doses de opressão sobre os bandidos, mas é claro que isso não configura nenhuma fidelidade, eles querem que o produto no qual investiram provoque os efeitos esperados, mas se não provocar, não terão a quem recorrer, a não ser buscar outro produto na prateleira…

    BELTRANO

    Caro,

    A assinatura está aí para isso. Precisando, tamos aí. Gostaria, entretanto, de comentar alguns tópicos de sua mensagem.

    O “homem comum”, a “maioria silenciosa”, “the real people” (vou chamar a tudo isto de “cidadão A” para facilitar), tudo isto é uma armadilha política muito comum. O antônimo destas figuras é o especialista político, o cidadão politizado, o “habitué” dos corredores da política, e os próprios políticos de carreira (vou chamar a tudo isto de “cidadão B”). A política, nesta armadilha, orbita entre o “cidadão A” e o “cidadão B”, via de regra com o último pedindo calma e paciência ao primeiro enquanto a política segue o “business as usual”. Aí ou se cai no elitismo ao apoiar o “cidadão B”, ou se cai na “oclocracia” ao apoiar o “cidadão A”. Inversamente, a crítica ao elitismo corre enorme risco de elogio à “oclocracia” (no caso presente, esta “oclocracia” tem tons fascistas), e a crítica à “oclocracia” pode muito facilmente degenerar em elitismo. Esta é a antinomia a transformar em contradição neste debate, saindo dos termos puramente lógicos com que ele é tratado e infundindo-o com História.

    No que diz respeito ao apoio da centro-direita aos palhaços fascistas, acho que a situação é inversa: é a centro-direita que depende da extrema-direita para continuar existindo, ainda que marginalmente. Quem se radicalizou foi o eleitorado. Não programaticamente, mas sim pragmaticamente. Mudanças sociais e política de grande monta têm resultado em instabilidade para certos setores, que por isto se transformam em conservadores, reverberam as opiniões correspondentes à sua posição em diversos assuntos, e em tempos de redes sociais capturam a atenção dos produtores de mídia, que enxergam mais o conteúdo das redes sociais que o dos problemas reais.

    Já sua observação sobre comédia, zuêra e extrema-direita, não vamos esquecer da longa história que isto tem. Ridentem dicere verum: quid vetat?, já dizia Quinto Horácio Flaco (65 AEC-8 AEC) nas Sátiras (Livro I, 1, 24), frase que pode ser traduzida como “dizer a verdade rindo: quem proíbe?”. Na mesma linha, castigat ridendo mores foi a inscrição criada por Jean-Baptiste de Santeul (1630-1697), poeta francês, para ser colocada em teatros, significando “castigue os costumes rindo”. O patrono da imprensa política brasileira, Aparício Torelly, satirista de marca maior, adotou-a em seu brasão numa forma levemente alterada.

    A essência da sátira, como se vê, não está no poder, mas em sua crítica. Ocorre que os “populistas” surgem primeiramente como críticos ao poder. A ascensão do Partido da Lei e da Justiça na Polônia e sua chegada ao governo por meio da eleição de Andrzej Duda, assim como a ascensão da Aliança Cívica Húngara e sua chegada ao governo por meio da eleição de Viktor Orbán, tudo isto se dá em processos de oposição aos governos pró-UE e à própria UE.

    A sátira não é positiva, ela é negativa, ela é destrutiva, ela não está aí há milênios para construir nada, a sátira é o gênero literário onde se aplica com maior propriedade o epíteto de “terra arrasada”. A sátira tem o botão foda-se quebrado no “on”, e por isto mesmo não é “de esquerda” ou “de direita”; pelo contrário, ela é de quem sacanear primeiro. A extrema-direita, quando está na oposição, toma a sátira de assalto: suas práticas conservadoras e reacionárias são alvo preferencial da sátira, mas como qualquer ser humano com mais de um neurônio sabe aproveitar-se da popularidade gerada por suas posições delirantes (nunca foi tão precisa a expressão “bater palma pra maluco dançar”), aquilo que deveria ser sua ridicularização é, na verdade, sua plataforma midiática. Quando não é isto, a extrema-direita também usa, ela própria, a sátira como ferramenta em sua posição oposicionista.

    Ainda sobre este assunto, um contraponto interessante foi feito pela Vox quanto às recentes coletivas de imprensa da Casa Branca. Involuntariamente, o jornalismo explicativo deles foi ao ponto, pois mostrou, em vídeos não-seriados, um padrão muito curioso. Num primeiro vídeo, mostraram o caráter espetacular das coletivas de imprensa. Depois, num segundo vídeo, mostraram como não adianta checar fatos contra a enxurrada de merda. Por fim, fizeram um terceiro vídeo, talvez o mais interessante: mostraram como na imprensa estadunidense de hoje são os comediantes quem melhor cobre a Casa Branca.

    Por que? Na leitura da Vox, com a qual concordo, comediantes são uns racionalistas desgraçados, esperam qualquer escorregão seu para te pegar de calças na mão; por isto mesmo, enxergam muito cristalinamente que só dá para lidar com a enxurrada de merda sacaneando. “O rei está nu!”

    Enfim, é isso. Não vou tomar mais do seu tempo. Boa sorte aí com Rancière.

    O artigo foi ilustrado com obras de Wassily Kandinsky

  • 2019-05-14T08:50:32Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Pensar Ideias & Debates Autogestão ou gestão: sobre a liderança tácita nos coletivos autônomos – ou...

    Autogestão ou gestão: sobre a liderança tácita nos coletivos autônomos – ou sobre coletivos autônomos nem tão autônomos assim

    https://passapalavra.info/2019/04/125920/

    Ao substituir os espaços coletivos por espaços privados, a militância perdeu sua característica de solidariedade, dando vazão ao individualismo e a práticas conservadoras.

    11/04/2019

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    Matter of Identity I 1963 Bernard Cohen born 1933 Purchased 1972 http://www.tate.org.uk/art/work/T01535

    Por Mo Lotov

    Ultimamente, muito tem se discutido sobre o fim do que entendemos hoje como “coletivos autônomos” (ver aqui e aqui). Os debates promovidos, acerca deste tema, têm enormes limitações e que não poderia, aqui, esmiuçar todas elas. O problema central desse debate é que o que se atribui como fator preponderante para que os tais “coletivos autônomos” acabem é justamente o identitarismo. Ora, o identitarismo enquanto ideologia e movimento corrobora para o fim dos tais coletivos, mas não pode ser considerado o único fator para que esses coletivos deixem de existir. A proposta desse texto é justamente tratar sobre um dos outros fatores para que os “coletivos autônomos” acabem.

    A questão da liderança tácita, por vezes, é ignorada ou excluída do debate dentro desses coletivos. O problema que nasce dessa questão é que dentro dos coletivos autônomos existem dois setores e a partir destes é possível analisar conjunturalmente o seu poder nocivo ou como se dá a prática desse coletivo frente às lutas e internamente.

    Em último ponto, proponho também uma crítica ao anti-identitarismo exacerbado e que não avança na prática para além da crítica. O anti-identitarismo como pior produto do identitarismo e, para isso, me arrisquei em algumas bibliografias disponíveis para esmiuçar ainda mais essa questão.

    Não basta somente dizer que o identitarismo é nocivo aos trabalhadores e à militância política, mas, além disso, entender que existem questões de violência interna, seja dentro da classe trabalhadora ou dos coletivos autônomos. Nisso, não pretendo me pautar com mais ênfase, pois já foi apresentando em outro texto disponível aqui, mas apenas refletir sobre como o anti-identitarismo exacerbado não propõe nada concreto — talvez por não se prestar à proposição ou simplesmente por não vislumbrar uma alternativa no horizonte.

    A questão central é analisar de que forma se organizam essas “lideranças” dentro dos coletivos autônomos, por que surgem e qual seu potencial político. Identitárias ou “proletárias”, essas tais lideranças tendem a se tornar nocivas para o coletivo, a partir do momento em que assumem essa posição, seja de forma explícita ou implícita. Também é preciso pensar o que chamamos de coletivos autônomos, de autonomia etc. Criou-se uma confusão generalizada e que, de forma concreta, acaba jogando no “mesmo saco de gatos” coisas totalmente diferentes.

    Gestão ou Autogestão?

    Por tendência, os movimentos e coletivos autônomos têm, por traços gerais de organização, a horizontalidade, a coletivização das tarefas, a independência frente a partidos, sindicatos ou quaisquer outras organizações burocráticas.[1] O termo que usamos hoje como “autônomo” já foi usado anteriormente para definir militantes que não estavam integrados às juventudes da burocracia eleitoral ou organizados em algum coletivo de tendência leninista, stalinista ou maoísta. Esses militantes até então eram chamados de “independentes”, pois se encontravam de fora das estruturas hegemônicas de organização.

    Em síntese, os coletivos “autônomos” reuniam anarquistas, marxistas libertários e heterodoxos, que até então eram marginalizados nas lutas que eram travadas por não terem um espaço de organização e formação conjunta. Hoje, o que podemos constatar em alguns coletivos e movimentos autônomos é a existência de uma espécie de direção. O leitor pode pensar nesse momento que houve um equívoco em minha última colocação — acerca da existência de líderes ou dirigentes presentes no campo autônomo. Porém, o que pôde ser analisado na maioria dos coletivos é que existem pessoas que possuem uma maior influência sobre os outros ou, então, uma espécie de legitimidade maior sobre o restante do movimento ou do coletivo.

    O problema apresentado nessa questão é que, de forma indireta, esses indivíduos tem uma maior propensão para guiar o restante do coletivo para propostas em que, ou ele mesmo faz, ou vá de encontro às suas pretensões pessoais. Esse guincho feito por essas forças, dentro dos coletivos e movimentos autônomos, acontece não na forma da disputa política clássica, mas por se tratar desses indivíduos que na maioria das vezes são mais carismáticos ou possuem uma interação maior no campo da militância autônoma. Esse não seria um problema, já que teoricamente se espera que o debate de propostas seja feito, mas em caso específico o que se constata é que o debate de questões fundamentais para que a “força vital” dos coletivos permaneça é minimizado em detrimento dessas forças. Como se a permanência e a força política desses indivíduos fossem as únicas coisas capazes de permitir a existência desses coletivos ou, até mesmo, sua continuidade.

    Dentro disso, é possível observar que começam a surgir dois polos dentro de um mesmo coletivo, e que é possível que nestes se aloquem duas forças fundamentais[2] para que esse coletivo “autônomo” continue sua existência. A disputa agora não é mais para construir uma pauta que tenha relação com a vida concreta ou que dialogue melhor para com a classe trabalhadora, mas sim a quase degladiação de militantes para ver quem pode mais.

    Os “novos” coletivos autônomos, a partir dessa dinâmica de forças pré-existentes (no sentido de que na maioria dos casos essas forças não se assumem como tal), tomam a forma de toda espécie de anomalias possíveis. A relação de forças nesses ambientes tende a acirrar-se cada vez mais, até que essa existência conjunta se torne problemática ao ponto em que a conjuntura do coletivo favoreça a força majoritária e esta, para pôr um fim a essa disputa de forças e se tornar hegemônica, organiza-se para expurgar o campo minoritário e ter novamente o controle tácito (ou não) do coletivo.

    Por outro lado, a força minoritária pode encontrar formas de ascender à liderança de determinado coletivo ou movimento. Na maioria dos casos, o trashing é a ferramenta mais utilizada. Primeiro, instaura-se um processo de monitoramento da vida pessoal e das relações sociais estabelecidas pelas forças políticas majoritárias. Posteriormente, ao encontrar algo que pode ser motivo de trashing para o movimento identitário, entregam a cabeça desses indivíduos, para que seja sacrificada nos meios militantes e nas mídias sociais. Dessa forma, desqualificam todas as posições políticas desses indivíduos, em detrimento da consolidação da força política, da ascensão à liderança desses coletivos ou movimentos. Para isso é usada a velha retórica leninista e tudo que há de mais baixo.

    O debate político, as mudanças de concepção ou as divergências teóricas pouco aparecem nesse processo, mas na maioria das vezes estas duas últimas tendem a ser os reais motivos para os “rachas” dentro da maioria desses coletivos. É preciso esclarecer para que não surjam equívocos, mas, aliadas a essa ação de busca pela hegemonia de uma força política e às disputas que acontecem no interior desses coletivos pela liderança, é que as mudanças de concepção e as divergências teóricas acirram-se e tendem a ser usadas como motivo para os rachas, além dessa dinâmica das relações de poder dentro desses coletivos e movimentos autônomos.

    Para que isso aconteça de forma efetiva, três coisas precisam estar colocadas na dinâmica desses coletivos e movimentos autônomos:

    1. Quando uma das forças agrupa a maioria dos militantes em torno de si e, a partir disso, tende a direcionar o coletivo ou o movimento para onde melhor lhe aprouver.

    2. Casos de violência interna como, por exemplo, racismo, LGBTfobia e violências entre militantes que podem ser usados na prática do trashing e que a militância identitária usa como motivo para a instauração de “tribunais”. Para essa questão só há dois caminhos possíveis, e ambos podem apresentar tendências tóxicas para o coletivo: ou se “resolve” a questão do ponto de vista identitário — que não tem base concreta alguma —, ou então encontram formas de lidar com essas questões, tendo em vista que o coletivo, o movimento ou, até mesmo, a esquerda não está desintegrada do restante da sociedade. O que vem dessa proposta pode ser trágico, mas igualmente necessário. Os militantes precisam estar cientes de que tomando essa via anti-indentitária, sofrerão todo o tipo de violência por parte do movimento identitário. Ainda existe outra alternativa, que tem sido adotada na maioria das vezes, quando existe a disputa extra movimento: se propõe uma resolução de fato concreta que esteja em negação ao identitarismo, mas ao passo que por consequência não consegue apontar as concepções de uma nova realidade social e com relações sociais novas. A segunda alternativa aponta para um horizonte ainda desconhecido e de questões ainda não resolutas (mesmo que de forma aparente), mas talvez seja a proposta menos drástica para a toxicidade dentro dos coletivos. Para ela, é preciso um esforço no sentido de ser construir coletivamente uma alternativa que seja de fato concreta e eficiente no sentido de gerar consciência política.

    3. Em concomitância com os pontos apresentados anteriormente para que as forças políticas presentes nesses coletivos e movimentos autônomos rachem, este talvez seja um dos motivos fundamentais. A partir do momento em que as forças políticas se organizam para hegemonizar o movimento e, por sua vez, dirigi-lo, as denúncias de violência interna e as tensões pessoais entre militantes tendem a acirrar-se.

    A separação entre disputas políticas e pessoais deixa de existir e em seu lugar surge uma espécie de “pessoalismo” que tenciona as relações entre militantes, não mais por causa de disputas de concepção e de prática para com as lutas, mas em intrigas pessoais e que em maioria não têm relação direta com as divergências teóricas no seio do movimento autônomo. Para esta, ainda não é possível apontar um caminho que seja eficiente, já que nesse momento o coletivo ou o movimento está em crise e se minimiza o debate sobre as divisões entre o político e o pessoal. O que geralmente é feito é contrário ao debate, no sentido de se construir uma alternativa ou chegar a um consenso coletivo. A falta disso corrobora para que as tensões pessoais cheguem a um nível onde se torna insuportável a coexistência de militantes num mesmo coletivo ou movimento.

    A partir disso, um racha se torna algo iminente, e geralmente o grupo majoritário tende a jogar no ostracismo quem não se agrupou em derredor. Isso é feito de diversas formas e é possível chegar aos níveis mais baixos da retórica leninista e da política identitária.

    O anti-identitarismo como pior produto do identitarismo

    Nesses ambientes, geralmente, é onde o identitarismo se aflora, e quando isso acontece os coletivos deixam de exercer sua função política e se direcionam para a resolução de questões internas e que, na maioria das vezes, são também uma questão de classe.

    Em momentos de refluxo das lutas é quando essas questões aparecem (ver aqui e aqui) com mais ênfase e, dependendo da força política que mais tenha legitimidade perante o coletivo, é que será determinado de que forma essas questões serão resolvidas. Quando o identitarismo não é um problema dentro desses coletivos o seu pior produto surge — e surge a partir das deficiências políticas desses militantes.

    Os “anti-identitários”, na maioria das vezes, tendem a não conseguir construir uma alternativa para além das vias identitárias e punitivistas. Nesses espaços, por deficiência na formação, é que uma vasta gama de questões é incluída ou minimizada, por serem entendidas como pautas identitárias. Sobre essa questão, Dantarez recentemente publicou um texto dizendo que “quando um movimento identitário, por mais que contraditório, se articula para reivindicar salários melhores para mulheres de certa categoria, por exemplo, ou para as questões relativas à saúde da mulher, ou sobre como os negros saem atrás na própria busca por um emprego por conta de sua cor, enfim, esses movimentos, apesar de suas contradições, conseguem promover avanços em objetivos específicos e, muitas vezes, imediatos, como criticá-los ou dizer que sua atuação cria uma ‘fragmentação’ na ‘classe trabalhadora’ quando a própria noção de luta da classe parece vaga?”. Ir além da crítica vazia ao identitarismo me parece ser uma questão demasiadamente importante. Ora, não pretendo fazer uma defesa do identitarismo, mas precisamos observar como esses movimentos se organizam na defesa das pautas “classistas” e aprofundar o debate em torno dessas relações.

    Se os pressupostos estão dados, aceitemos! Mas se, por outro lado, pensarmos os movimentos identitários como movimentos oriundos desse novo ciclo do capitalismo poderemos avançar também no sentido de construir alternativas às políticas punitivistas e fascistas desses movimentos.[3] De forma clara, os movimentos identitários propõem formas de lidar com as violências, mesmo essas formas sendo questionáveis e totalmente tóxicas. O que podemos fazer em contrapartida? Precisamos pautar o debate de como lidar com essas questões e me parece que a construção ou retomada da solidariedade de classe é uma das alternativas. Ao substituir os espaços coletivos por espaços privados, a militância perdeu sua característica de solidariedade, dando vazão ao individualismo e a práticas conservadoras.

    O anti-identitarismo torna-se o pior produto de identitarismo, pois este se fecha a uma perspectiva que pouco avança — a de que as pautas identitárias em sua totalidade são nocivas e fragmentam os trabalhadores. Dessa forma, questões pertinentes são abandonadas, dando lugar ao limbo e, por sua vez, fragilizando os coletivos e movimentos. O anti-identitarismo deve, por sua vez, atentar-se a essas singularidades, pensando em práticas alternativas ao movimento identitário e, sobretudo, resgatar seu caráter anticapitalista.

    Reflexões Finais

    O que chamam vulgarmente hoje de esquerda é, na verdade, o arcabouço do que mais existe de conservador. Substituímos os espaços de solidariedade por espaços de disputa cruel e irresponsável, que, além da exclusão e da mutabilidade, tendem a deixar os militantes com sérios problemas psicológicos.

    A lógica é dada pelas velhas disputas de liderança — ou por quem pretender se tornar —, sejam elas instituídas pelo coletivo, de forma legal e legítima, ou de forma tácita. O somatório desses expoentes resulta, muitas das vezes, em rompimentos que estão imbuídos de linchamentos. A utilização desses métodos serve, principalmente, para que indivíduos sejam elevados à posição de liderança dentro de um determinado movimento.

    Chega um momento onde se torna necessário abandonar a perspectiva utópica de que a esquerda é um lugar “santo” e que ela está separada do restante da sociedade. Tenho pensado, nos últimos meses, que é necessário resgatar determinadas coisas para que seja minimamente viável continuar naquilo que chamamos de militância.

    A solidariedade é algo que perdemos há muito. É inegável que a ausência de solidariedade entre nós e de nós para com os trabalhadores se transformou num sentimento de mágoa, pois os “nossos” não estão no poder. Essa ausência de solidariedade se perdeu há muito e o reflexo dela é a nossa incapacidade de apoiarmos a luta de trabalhadores que não estão vinculados de alguma maneira aos interesses da esquerda.

    A crítica ao identitarismo deve ser radical, mas precisamos ter em mente questões lógicas a respeito desse movimento. Aqueles que se propõem a ser anticapitalistas devem levar essa perspectiva até as últimas consequências.

    As imagens que ilustram o artigo são de Bernard Cohen e, com exceção da última, fazem parte da série “Matter of Identity”

    Notas

    [1] Para uma melhor compreensão da autonomia, autonomismo e movimento autônomo, recomendo a leitura da série Reflexões sobre autonomia, disponível aqui.

    [2] É preciso esclarecer, para que não surjam equívocos, que no primeiro momento não existe uma divisão muito clara das forças políticas existentes no mesmo coletivo. Dessa forma, as disputas são travadas para negar a força que majoritária. posteriormente, com o acúmulo de forças, as disputas por lideranças tendem a acirrar as relações dentro de um coletivo ou movimento.

    [3] A relação entre fascismo e movimento identitário pode ser melhor compreendida a partir de: BERNARDO, João. O fascismo pós fascista. In. BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo. 2ª versão, Disponível aqui.

  • 2019-05-14T08:49:59Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Mundo Carta para o primeiro-ministro da Suécia

    Carta para o primeiro-ministro da Suécia

    https://passapalavra.info/2019/04/126269/

    Nós acreditamos que o processo é politicamente motivado. Acusações fabricadas, sem nenhuma evidência, foram trazidos contra um homem inocente.

    24/04/2019

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    Cidadãos preocupados

    A carta abaixo faz parte da campanha de liberdade para Ola Bini, o original está no site da campanha e foi traduzido pelo Passa Palavra.

    Caro Primeiro-ministro Stefan Löfven,

    Em 11 de abril, Ola Metodius Bini natural da Suécia, um desenvolvedor de software livre, foi preso em Quito (Equador). Ele tem vivido na república do Equador pelos últimos seis anos. Ola Bini está agora em uma detenção pré-julgamento por 90 dias. Não foi concedido direito de pagamento de fiança.

    O caso de Ola Bini tem mostrado uma preocupação mundial. O Relator Especial da ONU sobre Liberdade de Expressão, David Kaye disse que “Nada na história conecta Ola Bini a nenhum crime”. Além disso, ele disse “O governo do Ecuador precisa demonstrar mais que isso ou isso parece uma detenção arbitrária”. O Relator Especial da Organização dos Estados Americanos para a Liberdade de Expressão, Edison Lanza, adicionou “Eu compartilho as preocupações de David Kaye sobre a prisão e detenção do ativista digital Ola Bini”.

    A Anistia International e Article 19 tem publicamente ecoado suas preocupações e estão monitorando de perto o caso.

    Em 11 de abril, Ola Bini estava indo para o Japão para um curso de treinamento de artes marciais, qual ele tinha avisado no Twitter uma semana antes. Ele foi detido pela polícia equatoriana. Em uma violação ao devido processo, a polícia não contatou as autoridades suecas. Esse processo é parte do padrão das leis equatorianas. Depois de 15 horas do início da detenção, eles fizeram contato.

    Os direitos humanos de Ola Bini foram violados repetidamente pela política, pelo Ministério do Interior, pela Procuradoria Geral da República e pelo Juiz encarregado pelo caso. O agente que inicialmente deteve ele não tinha um mandato válido. Ele teve negado o acesso a seus advogados por 17 horas. Ele não teve permissão a tradutor – mesmo que seus espanhol seja rudimentar. Ele não foi informado das acusações contra ele.

    Ola Bini foi mantido no aeroporto por mais de oito horas. Em uma violação as leis equatorianas, ele não foi transferido para as dependências da polícia. A polícia então levou ele para sua casa, onde ele foi coagido a permitir acesso. Finalmente, ele foi levado para uma instalação abandonada pela polícia judiciária, onde passou a noite. Naquela época, ele ainda não tinha acesso a aconselhamento jurídico ou assistência.

    Na manhã seguinte – em 12 de abril – Ola Bini foi transferido para o gabinete do procurador, onde ele foi mantido por mais 12 horas, antes de ser ouvido. Por um total de 17 horas Ola Bini não foi permitido nenhum conselho legal ou comida. Seus advogados reportaram que ele foi assediado e ameaçado pela polícia.

    Na audiência, o procurador ofereceu nenhuma evidência contra Ola Bini. Baseado no código penal do Equador, ele foi acusado de um crime muito grave – ataque a integridade de sistemas de computadores. 

    Independente da falta de qualquer evidência, o juiz colocou Ola Bini em detenção pré-julgamento por 90 dias. Não foi oferecido nenhuma possibilidade de pagamento de fiança.

    Nós acreditamos que o processo é politicamente motivado. Acusações fabricadas, sem nenhuma evidência, foram trazidos contra um homem inocente. Ele foi pego em uma disputa que não lhe diz respeito e com a qual ele não está envolvido. Não existe uma única peça de evidência que o incrimine. Ola Bini está em uma prisão equatoriana, com a fiança negada, e sem nenhuma garantia de um devido processo.

    Ola Bini é uma figura respeitada globalmente na comunidade de software livre, e um renomado ativista por direitos à privacidade. Em 2010, a revista Computerworld nomeou ele como 6º melhor desenvolvedor sueco. Ele é membro de várias redes europeias e internacionais de software livre e privacidade e tem participação em projetos de alto nível, alguns deles patrocinados pela Comissão Europeia. Ola nunca expressou quaisquer opiniões que possam de alguma forma ser uma ameaça para o governo equatoriano.

    Como evangelista e ativista pelo direito a privacidade, Ola visitou Julian Assange na embaixada equatoriana em Londres muitas vezes. No entanto, ele não trabalha para Wikileaks, nem nunca trabalhou para eles. Qualquer alegação que ele está conspirando contra o governo equatoriano e seus sistemas computacionais é falso e ridículo.

    Nós apelamos para o governo sueco para ter uma firme e imediata ação. Até agora, os esforços do governo sueco limitaram-se à presença do Cônsul Honorário da Suécia em Quito. Enquanto agradecemos que o Cônsul Honorário Sueco em Quito se envolvesse, gostaríamos de pedir a você e ao governo para elevar isso a um nível político, já que parece ser uma razão política por trás da prisão. Estamos certos de que o mal-entendido sobre quem é Ola e o que ele faz pode ser rapidamente resolvido. A sociedade sueca e o governo da Suécia são reconhecidos em todo mundo como ativos defensores e promotores de direitos humanos e liberdade de expressão. Sua família, seus amigos, seus colegas, pedem que o governo sueco interceda por Ola perante as autoridades equatorianas, demande por respeito as leis e os direitos humanos de Ola. Assim como facilite seu retorno seguro e imediato para Suécia.

    Respeitosamente,

    Cidadãos preocupados:

    Pamela Anderson / Atriz

    Brian Eno / Artista, Músico

    Yanis Varoufakis / co-fundador  da DiEM25, Professor de Economics – Universidade de Athens

    Arundahti Roy / Autor

    Danny Glover / Ator

    Dave Eggers / Autor

    Noam Chomsky / Institute Professor (emeritus) MIT, Laureate Professor U. of Arizona

    Adolfo Perez Esquivel / Premio Nobel da Paz em 1980, Argentina

    Evgeny Morozov / Escritor e pesquisador em implações sociais de tecnologia

    Srecko Horvat / Filósofo

    Jean-Luc Mélenchon / French MP e Presidente do Presidente do Grupo Parlamentar França Insoumise

    Pablo Iglesias / Secretário Geral do Podemos, candidato a presidente, Spain

    Mairead Maguire / Premio Nobel da Paz em 1976, UK

    Vendela Vida / Autor, USA

    Martin Fowler / Desenvolvedor de Software e Autor

    Agustín Frizzera / Diretor – Democracia en Red –

    Eli Gomez Alcorta / Advogado em Milagros de Sala e diversas causas de defesas de direitos humanos.

    Gloria Verónica Sammartino / Professor – Universidade Buenos Aires

    José Shultman / Presidente da liga argentina de direitos humanos.

    Juan Grabois / CTEP líder e membro do Patria Grande Front. Coordenador do diálogo de movimentos populares com o Papa Francisco

    Manuel Bertoldi / Patria Grande Front

    Marga Ferré / Presidente do La FEC, Foundação Europe of the Citizens

    Scott Ludlam / Ex-senador australiano

    Tim Norton / Observador de direitos digitais

    Davide Castro / DiEM25, and Co-Fundador do World Solidarity Forum

    Christian Leon / Political Innovation Asuntos del Sur

    Wagner Moura / Ator, Diretor

    Ariovaldo Ramos / Evangelista do Front for a State of Rights

    Bernardo Loureiro Jurema /

    Carol Proner / Membro do International Committee of the Brazilian Association of Jurists for Democracy

    Eleonora de Lucena / Jornalista

    Fabio Luis Barbosa dos Santos / Professor na UNIFESP Universidade no Brasil

    Frei Betto / Frade e escritor dominicano

    Heloisa Fernandes / Sociologista – Universidade de São Paulo

    João Paulo Rodrigues / Diretor Nacional do MST e Frente Popular Brasil

    Joao Pedro Stedile / MST e Via Campesina Brasil

    Leonardo Boff / Teólogo, Filosofo e membro do International Earth Charta Comission

    Marco Antonio Santos / Psicólogo

    Paulo Sergio Pinheiro / Ex-ministro de direitos humanos e ex-coordenador da National Truth Commision

    Rodolfo Lucena / Jornalista

    Valerio Arcary / Historiador e professor – IFET São Paulo

    Virgínia Fontes / Professor – Universidade, Rio de Janeiro

    Cory Doctorow / Autor e co-editor, Boing Boing

    Javier Arteaga / Diretor, Feeling

    Nicolás Díaz Cruz / Diretor executivo, Extituto de Política Abierta

    David Heinemeier Hansson / Programador dinamarquês

    Alfredo Velazco / Usuarios Digitales

    Pavel Égüez / Pintor muralista

    Rubén Zavala / Professor de educação popular, fotógrafo

    Sofía Celi / Tecnologista

    George Danezis / University College London

    Nicklas Andersson / CTO

    Perti Sumula / Associação – amigos do MST

    Antoine Deltour / Denunciante

    Frank Barat / Russell Tribunal

    Ana Miranda / European Parliament MP, Group of the Greens/European Free Alliance

    Angela Richter / Diretor

    Geraldine de Bastion / Konnektiv Kollektiv

    Heike Hänsel / MP, Left Party Spokesperson no Committee on International Relations of the German Bundestag

    Heinrich Buecker / Colaborador do Anti-War Cafe Berlin

    Johanna Scheringer-Wright / Membro do Regional Parliament of Thuringia (Mitglied des Landtages Thüringen)

    Katharina Wojcik / DiEM25

    Moritz Bartl / Renewable Freedom Foundation

    Sevim Dagdelen / MP, Vice Chair Left Parliamentary Group of the German Bundestag

    Walter Palmetshofer / Open Knowledge Foundation Germany

    Dmytri Kleiner /

    David Adler / Diem25

    Eirini Mitsiou / Membro do Coordinating Collective in DiEM25

    Erik Edman / Sociólogo, Ativista, MEP candidate MeRA25

    Renata Avila / Diretor  Executivo, Fundación Ciudadanía Inteligente

    Birgitta Jónsdóttir / ex-parlamentar pelo movimento civil e partido pirata no parlamento da Islândia e chairman for IMMI (International Modern Media Institute).

    N. Ram / Chairman do The Hindu Publishing Group, Chennai, India

    P. Sainath / Fundador, People’s Archive of Rural India

    Prabir Purkayastha / Presidente do Free Software Movement of India

    Vijay Prashad / Diretor, Tricontinental: Institute for Social Research

    Y Kiran Chandra / Secretário geral do Free Software Movement of India

    Clare Daly / Deputy to the Dáil (MP), Independents 4 Change

    Mick Wallace / Deputy to the Dáil (MP), Independents 4 Change

    Carlo Freccero / Autor

    Felice Cappa / Autor, Diretor

    Francesca Bria / CTO Barcelona and DECODE project lead

    Lorenzo Marsili / Co-Founder European Alternatives

    Khadija Ryadi / Laureate UN Human Rights Award 2013

    Gustavo Banegas / PhD Estudante/técnico Universiteit Eindhoven

    Maricarmen Sequera / Diretor Executivo, TEDIC

    Irvin Jim / Secretário Geral, National Union of Metalworkers of South Africa (NUMSA)

    Richard Pithouse / Editor – New Frame

    S’bu Zikode / Presidente do Abahlali BaseMjondolo

    Zackie Achmat / UniteBehind

    Alberto Garzón / Spanish MP e coordenador geral do United Left Party

    Almudena Bernabéu / Advogado dos direitos humanos, Co-fundador do Guernica 37

    Enrique Santiago / Secretário Geral do Spanish Communist Party, Human Rights Lawyer

    Ernest Urtasun / Parlamentar Europeu MP, Group of the Greens/European Free Alliance

    Estefanía Torres Martínez / Parlamentar Europeu MP, Confederal Group of the European United Left – Nordic Green Left

    Gerardo Pisarello / Primeiro vice-prefeito de Barcelona

    Javier Couso Permuy / Parlamentar Europeu MP, Confederal Group of the European United Left – Nordic Green Left

    José María Guijarro / Spanish MP e Secretário Geral do Parliamentary Group of Unidas Podemos

    Lola Sánchez Caldentey / Parlamentar Europeu MP, Confederal Group of the European United Left – Nordic Green Left

    Maite Mola / Vice Presidente do Party of the European Left (PEL)

    Miguel Urban / Parlamentar Europeu MP, Confederal Group of the European United Left – Nordic Green Left

    Pablo Bustinduy / Spanish MP and International Secretary of Podemos

    Tania González Peñas / Parlamentar Europeu MP, Confederal Group of the European United Left – Nordic Green Left

    Xabier Benito Ziluaga / Parlamentar Europeu MP, Confederal Group of the European United Left – Nordic Green Left

    Yolanda Cvitak / MundoJusto

    Jimmy Nilsson / Founder of fAtor10

    Jon-Erling Dahl / CTO / fooheads AB

    Niclas Nilsson / CEO em fooheads AB

    Zimoun / Artista, Switzerland

    Ammar Amroussia / MP (Popular Front) Tunisia

    Hamma Hammami / GS (Popular Front) Tunisia

    Heikel Belkacem / MP (Popular Front) Tunisia

    Jilani Hammami / MP (Popular Front) Tunisia

    Paul Mason / Jornalista e Decode advisory panel member

    Aijaz Ahmad / Professor  Chanceler no Department of Comparative Literature, University of California (Irvine)

    Albert Leger / Artista/Ativista

    Anthony Arnove / Editor

    Colonel Ann Wright / Veterans for Peace e ex-diplomata da UN, que renunciou em 2003 em oposição à guerra dos EUA no Iraque

    Cristina García / Novelista

    Daniel Goodwin / Procurador

    David Harvey / City University of New York

    Jodie Evans / co-fundador do CODEPINK; Women for Peace

    John Kiriakou / ex-oficial de contraterrorismo da CIA e ex-investigador sênior, US Senate Foreign Relations Committee

    Joslyn Barnes / Produtor de filmes

    Mark Weisbrot / CEPR, USA

    Medea Benjamin / co-fundador do CODEPINK; Women for Peace

    Mishi Choudhary / Diretor legal, Software Freedom Law Centre

    Neville Roy Singham / Fundador da ThoughtWorks, agora aposentado.

    Patrick Linskey / Engenheiro, Cisco Systems Inc.

    Reverend Dr. William J. Barber II / Repairers of the Breach and Poor Peoples Campaign, USA

    Shanti Marie Singham / Professor de Historia estudos africanos, Williams College, Massachusetts USA

    Stephanie Whited / Diretor de comunicação – torproject. Ator, Escritor

    Vivien Lesnik Weisman / Latinovision Productions

    William E. Binney / Ex-diretor técnico da NSA

    Carolina Resende Haddad /

    Seth Pyenson /

  • 2019-05-14T08:49:15Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Noticiar Mundo O que a prisão de Julian Assange tem a ver com a...

    O que a prisão de Julian Assange tem a ver com a prisão do desenvolvedor sueco de software Ola Bini?

    https://passapalavra.info/2019/04/126140/

    A prisão de Ola Bini e de Julian Assange é uma mensagem clara: está em curso um processo de criminalização contra aqueles que tentarem trazer à tona fatos relacionados a crimes cometidos por políticos e altos gestores do Estado.

    17/04/2019

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    Por Passa Palavra

    No dia 10 de abril de 2019 Julian Assange foi preso, arrancado da embaixada do Equador na cidade de Londres, logo após o atual presidente equatoriano, Lenín Moreno, suspender o asilo político concedido por seu antecessor, Rafael Correa, desde de junho de 2012. O motivo da prisão de Assange está relacionado ao fato de ele ser considerado pela justiça britânica como um bail jumper — ou seja, alguém que não se apresentou novamente à justiça britânica depois de ter sido libertado por fiança; Assange havia sido preso na Grã-Bretanha por força das acusações de abuso sexual na Suécia, que posteriormente foram arquivadas.

    Julian Assange é a pessoa por trás do Wikileaks, um site especializado em analisar e publicar arquivos censurados ou restritos por governos, que normalmente envolvem espionagem, guerra e corrupção. Um dos vazamentos mais recentes é o “INA Papers – Los documentos sobre la corrupción presidencial en el Ecuador, um conjunto de documentos que mostram como Lenín Moreno tinha uma empresa de investimentos aberta pelo seu irmão em Belize, um paraíso fiscal, usada para lavar dinheiro que os dois haviam recebido de propina paga por empresas chinesas do ramo de construção.

    Não nos parece necessário detalhar como a revogação do asilo está relacionada com uma vingança pessoal do atual presidente do Equador que, quando teve seus crimes expostos, decidiu permitir que a polícia britânica adentrasse a embaixada e prendesse Assange, um perseguido político, à força.Captura de tela/Youtube/ GOTO Conferences

    Mas o que a prisão de Julian Assange tem a ver com Ola Bini? Essa é uma pergunta interessante.

    Ola Bini é um desenvolvedor de software sueco, que tem como foco de estudo e trabalho segurança da informação e privacidade. Ele é mundialmente conhecido por sua atuação em projetos de software livre.

    Ola Bini também é uma pessoa assiduamente crítica à censura e à invasão da privacidade, e participou ao longo dos anos de inúmeras conferências sobre estes temas, tornando-se uma das referências no assunto.

    No dia 11 de abril de 2019 Ola Bini foi preso no aeroporto de Quito quando faria uma viagem para o Japão. Não há acusações claras para a prisão, mas as notícias sobre o tema dizem que hackers russos e um membro do Wikileaks estariam colaborando com a desestabilização do governo equatoriano.

    Pontos a se considerar:

    Ola Bini segue preso após um juiz equatoriano determinar sua prisão preventiva por 90 dias; seu advogado, Carlos Soria, classificou a decisão como “inconcebível e surpreendente” e anunciou que irá apelar. Adicionou ainda, em entrevista à Reuters:

    Trata-se de vincular um caso de possível espionagem a algo sem nenhuma prova ou evidência. Ola Bini é um amigo pessoal de Julian Assange, mas não é membro do Wikileaks, e ser amigo de alguém não é um delito, nem ter computadores em casa é um delito

    A prisão de Ola Bini e de Julian Assange é uma mensagem clara: está em curso um processo de criminalização contra aqueles que tentarem trazer à tona fatos relacionados a crimes cometidos por políticos e altos gestores do Estado.

    Leia também:

    Google não é o que parece

    Em trecho do seu livro, o fundador do WikiLeaks escreve sobre seu encontro com os executivos do Google e sua relação com Washington. Por Julian Assange

    WikiLeaks e os conflitos no ciberespaço

    A revelação de documentos secretos da diplomacia dos Estados Unidos abre uma batalha pela liberdade da informação. Por Passa Palavra

    WikiLeaks sob ataque: suposto informante é preso

    Prisão de suposto informante de Assassinato Colateral desencadeia campanha contra WikiLeaks. Numa trama de hackers e vazamento de informação, o quebra-cabeça permanece incompleto. Por Passa Palavra

  • 2019-05-14T08:48:27Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Destaques Em Goiânia, Jesus roubou a cena do primeiro de maio

    Em Goiânia, Jesus roubou a cena do primeiro de maio

    https://passapalavra.info/2019/05/126415/

    Não apenas estamos perdendo. Estamos fora do jogo!

    04/05/2019

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    Por Julius Unsichtbar

    De manhã cedinho, no subterrâneo…

    Havia duas empresas que ousaram abrir no primeiro de maio naquela região da cidade. Um supermercado e um restaurante. Alguns trabalhadores que estavam de folga detectaram a insatisfação que havia dos funcionários com a situação. Para esses que estavam trabalhando, primeiro de maio não era nem dia de luta nem de festa. Apenas mais um dia de opressão e exploração. Os trabalhadores de folga organizaram uma pequena panfletagem e manifestação para lembrar a esses colegas trabalhando que 1º de maio era um dia de luta contra a reforma da previdência, que devia ser de folga e que eles não estavam sozinhos. O pessoal na ativa sorriu mesmo foi com a menção ao direito à folga. A ação pegou os patrões ‘ousados’ totalmente de surpresa, conseguiram entregar panfletos dentro da cozinha e no armazém do supermercado. O gerente, que não imaginava que existisse isso, demorou para perceber e quando a polícia foi chamada, foi com muito atraso e os manifestantes conseguiram escapulir. O vigilante, por simpatia ou por não ter instruções, fez corpo mole. Quais as consequências da ação? Difícil saber. Mas antes não havia disputa aberta acontecendo naqueles lugares – era apenas a ditadura pessoal dos patrões e gerentes. “Ame-nos ou rua”. Com a ação, outro assunto e alternativas entraram em cena para ser, ao menos, o comentário da semana. “Por que diabos esse povo veio aqui arrumar confusão… será que estavam certos ou errados? São doidos ou lúcidos? Será que pode panfletar aqui dentro”?

    Ficaram as questões para esses trabalhadores: os que organizaram e os que receberam.

    Na tardezinha, se manifestam ao céu aberto…

    1 – A Esquerda Mais ou Menos Sem Medo

    Todas as Centrais Sindicais e Frentes Populares, Sem Medo e tudo mais anunciaram que haveria uma grande manifestação unificando a todos contra a reforma da previdência. Vários trabalhadores da base da educação básica e superior, urbanitários, comerciários relatam pouquíssima mobilização nos locais de trabalho salvo pelo carro de som avisando do ato dois dias antes. Começou na Catedral da rua dez umas 14h30, terminou na Praça Universitária umas 20h com festas e shows da ‘cultura popular’. O resultado se vê aqui na foto:Lula Livre, vermelho, pouca diversidade estética, estilo ‘trabalhador tradicional’, pouco mais de cem trabalhadores

    2 – “O pessoal que não fecha com ninguém mas tem coragem”

    Por outro lado, duas organizações de trabalhadores independentes na cidade, a Federação Autônoma de Trabalhadores, o Invisíveis e independentes chamaram um Bloco Autônomo pelas críticas dessas organizações à histórica pelegagem das centrais, sua traição costumeira das bases e sua desmobilização. A ideia era juntar trabalhadores e estudantes que não fechassem politicamente com as entidades. Conseguiram mobilizar pelas redes sociais e, com bastante dificuldade e esforço, em alguns locais de trabalho na semana antes do ato. Começou na Catedral da rua dez, terminou na Praça Universitária. Começou às 13h, terminou às 16h. Foi mais agitado, teve uma batucada das boas. O resultado, também, se vê em uma imagem:Muito preto e vermelho, cores vibrantes e agitação, pessoas jovens e ‘diferentes’, mas também na casa de cem

    3 – “Deus não está morto não”!

    Desde 2018, a Marcha Para Jesus é realizada em Goiânia no primeiro de maio “para aproveitar o feriado”. Nesse ano, com apoio da estrutura do estado e prefeitura, conseguiram reunir pelo menos cem mil pessoas de acordo com o jornal O Popular. A convocatória é feita pela Igreja Fonte da Vida, mas é assumida por diversas igrejas. O evento recebe caravanas de todo o interior de Goiás. Vejamos como foi a de 2018, que pela contagem dos jornais deu cem mil pessoas.A faixa com destaque ’político’ era essa da ”ideologia de gênero” e outra com ”diga não a pedofilia”

    Em 2019, não foi muito diferente. “Aproveitaram” o feriado do primeiro de maio para reunir os fiéis e esperam pelo menos 200 mil pessoas. A programação começou às 14h com uma marcha enorme de milhares e milhares a perder de conta da Praça do Avião até a Praça Cívica e vai até as 22h com shows e orações. Vamos a mais uma foto ilustrativa, dessa vez de 2019, para finalizar o relato e começar uma reflexão:

    À noite, bateu a bad e os shows evangélicos não deixavam ninguém dormir…

    4 – E agora?

    Convidei uma colega de algumas lutas para o ato dos ‘intransigentes’. Essa colega é trabalhadora precária e não tem religião. Ela me respondeu: “Anem, pra quê? Vou pra Marcha de Jesus. Vai ter muita gente e pelo menos não vou ficar sozinha”. Confesso que não consegui falar para ela qual seria a vantagem maior de participar do ato “de luta” ao invés de procurar alguma companhia e conforto. Quando ela precisou de moradia porque ficou desempregada sem pagar aluguel, quem a ajudou não foi o pastor, mas foi uma irmã evangélica que ofereceu a casa. Em troca essa irmã ofereceu também um forte controle sobre seus hábitos e suas relações, querendo restringi-los à igreja. Esse controle não acontece pacificamente, gera muito conflito. Mas ela sabe que fora dali dificilmente ela vai conseguir o apoio que conseguiu. Por outro lado, ela sabe que é com nós “esquisitos” que ela consegue apoio contra o patrão que rouba seu salário, com divulgar os problemas, somos os únicos que topariam uma briga pelo direito dela e dos colegas. Existe uma brecha aí em que conquistamos sua confiança. Porém, realmente não oferecemos uma situação em que ela não fique sozinha mesmo. Essa disputa, me parece, nós já perdemos. Com ela, perdemos as ruas.

    Resta fazermos as contas. Não apenas estamos perdendo. Estamos fora do jogo! 200 mil contra 100 unidades não tem nem disputa. Onde ainda podemos ser fortes? Onde o nosso conflito ainda faz sentido e onde é possível expandir as relações de confiança que nos interessam? E o que falta para começarmos a nos arriscar e construir isso? Penso que a resposta pode estar na ação descrita no começo do texto, em que foi possível, com uma ação organizada, romper uma situação favorável aos patrões e vislumbrar um horizonte diferente. Ali, naquele pequeno universo que se repete por toda a banda, quem roubou a cena foi a subversão dos trabalhadores em luta e solidariedade. Mas ainda é muito pouco ou quase nada.

    VIAPassa Palavra

    FONTEPassa Palavra

  • 2019-05-14T08:47:00Z via Dianara To: Public CC: Followers

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    Redes sociais federadas: uma aposta

    https://passapalavra.info/2019/05/126454/

    Estamos apostando agora numa migração parcial de nossa presença na internet para redes sociais federadas, e esperamos que outras iniciativas de comunicação semelhantes ou próximas ao Passa Palavra sigam caminhos parecidos ao nosso e contribuam para aumentar a diversidade na rede.

    14/05/2019

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    Por Passa Palavra

    A esta altura do campeonato, militante que não sabe dos riscos envolvidos num simples acesso à internet está comendo mosca. As denúncias de Snowden, Assange e Manning são suficientes para que qualquer um saiba que a internet é, ao mesmo tempo, um espaço privilegiado para a propaganda e para a organização, e também um campo minado.

    Há neste dilema um trade-off macabro entre proteção e exposição. Quem privilegia um lado do problema termina, necessariamente, enfraquecendo o outro, sem qualquer meio-termo.

    Pode-se optar pela proteção: redução no número de acessos à internet, acesso à rede somente por meio de canais seguros (TOR, VPN, I2P etc.), diminuição da presença em redes sociais, uso de múltiplos perfis… e vão-se, assim, as oportunidades de influenciar o debate público, de divulgar posições, de confrontar tanto o conservadorismo linha-dura quanto o “capitalismo gente boa”.

    Pode-se optar pela exposição: aumento da presença na internet e em redes sociais, acesso por meio de canais seguros e inseguros, construção de uma imagem pública a partir de um perfil ou de um grupo determinado de perfis… e vão-se, assim, todas as noções mais básicas de segurança, pois a militância fica exposta em excesso e dá um prato cheio à repressão.

    O dilema fica preso nestes termos se se levar em consideração apenas os serviços fornecidos pelas grandes corporações. E-mails, redes sociais, mensageiros instantâneos, todas as ferramentas que empregamos para nossa comunicação na internet dispõem de alternativas livres, capazes de reduzir — reduzir, não eliminar — a exposição a que somos sujeitos. Como já existem boas iniciativas de mapeamento destas ferramentas — como o projeto PRISM Break — além de bons coletivos ativistas dedicados ao assunto — como este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este e este — não vamos nos estender neste assunto. Basta dizer, para quem ainda não tenha dedicado mais tempo e atenção ao assunto, que é bom, sim, usar e-mail do Riseup e trocar o WhatsApp pelo Signal (ou pelo Briar, para os mais preocupados), mas isto por si só não basta — pior, cria a ilusão de segurança absoluta quando são apenas duas entre as muitas camadas de segurança necessárias para um uso da internet que tenda à segurança.

    O Passa Palavra, como um site anticapitalista, compartilha estas mesmas preocupações. Não temos a competência necessária para criarmos, nós mesmos, alternativas de comunicação eficazes, mas podemos certamente participar das iniciativas já existentes. Estamos apostando agora numa migração parcial de nossa presença na internet para redes sociais federadas como Diaspora*, Mastodon, Friendica e Pump.io. Ao fazè-lo, esperamos que outras iniciativas de comunicação semelhantes ou próximas ao Passa Palavra sigam caminhos parecidos ao nosso e contribuam para aumentar a diversidade na rede.

    ***

    Quais as vantagens de migrar para uma rede social federada? Não seria um trabalho extra? O público nestas redes não é minúsculo? Por que se dar este trabalho?

    Mesmo com tantos “contras”, há muitos “prós” a se considerar.

    Primeiro, nestas redes há maior controle sobre o conteúdo de suas publicações e sobre os lugares por onde ela circula, porque o modelo descentralizado de funcionamento garante maior liberdade de escolha e ação. A explicação pede um pouco de atenção por causa de alguns detalhes técnicos, mas tentaremos simplificar ao máximo. Preferimos garantir que o público leitor entenda as linhas gerais do modelo de funcionamento que fornecer a mais precisa e perfeita descrição técnica do processo — o Passa Palavra submete a técnica à política, e não o contrário.

    Para usar o Twitter, por exemplo, você cria uma conta. Seus dados ficam lá no computador da empresa Twitter, você não sabe o que é feito deles. Ainda no exemplo do Twitter, seu perfil aqui “não conversa” com seu perfil do WhatsApp, com o do Facebook, com o do Instagram, com o do Telegram etc. Lá nas máquinas da empresa Facebook seus dados passam entre Instagram/Facebook/WhatsApp, por exemplo (a Facebook é dona destes três serviços e pode fazer exatamente isto), mas aqui fora elas “não conversam”. Se você “mexer” um pouco, suas fotos do Instagram saem no Twitter, no Facebook e no Tumblr, mas nada que você publica no Twitter vai para lá sem instalar uns plugins e outros cacarecos. Até pouco tempo atrás dava para conectar Facebook e Twitter, hoje ao que parece não dá mais. Mas nem é essa a questão. Como estas redes são estritamente comerciais, umas concorrem com as outras. Deste modo, não é interessante que seu perfil em uma “converse” com seu perfil em outra, exceto se for possível ou monetizar sobre a conexão, ou garimpar mais dados graças à “conversa”. Deste modo, não é você quem escolhe como suas postagens vão se disseminar. Além disto, você também não tem muita margem de escolha sobre os lugares onde suas postagens serão disseminadas. E tem seus dados, claro, que são usados pelas empresas donas das redes.

    Vamos ver agora um exemplo de rede social federada, a Diaspora*. Este nome vale tanto para a rede social quanto para o software que a faz funcionar. O software é livre, o que significa que qualquer pessoa que queira (e, tecnicamente, saiba configurar um computador para acesso externo) pode baixá-lo em seu próprio computador e fazer funcionar uma rede social que sirva, digamos, só para meus amigos ou para os membros de um grupo político, por exemplo. Este computador, no jargão técnico das redes sociais federadas, passa a funcionar como um nó da rede, como um pod. Como Diaspora* é uma rede social federada (ou distribuída), isto não quer dizer que as pessoas inscritas neste pod (digamos, ”@antipelegada.net“) só falem com gente inscrita nele. fulano@antipelegada.net conversa com beltrano@diasporabr.com.br como se fossem da mesma rede. Isto quer dizer que há maior possibilidade de controle sobre dados, políticas de uso etc. numa rede social federada como Diaspora*. Como é software livre, qualquer pessoa que domine a programação adequada pode contribuir com plugins e conectar mesmo com redes sociais “fechadas”.

    Outro exemplo: Friendica é uma rede que mistura funcionalidades do Facebook e do Twitter, entre outras muitas coisas. Assim como Diaspora*, qualquer pessoa que queira (e saiba) instalar uma Friendica em seu computador para transformá-lo num pod (digamos, ”@antiexploracao.net“) pode fazer uma rede mais restrita e controlada, e isto não impediria em nada conversar com pessoas de outros pods (isto é, de outras “redes pessoais” como esta). Ainda no mesmo exemplo, fulana@antiexploracao.net conversa com beltrana@libranet.de (”@libranet.de“ é um dos principais pods da rede Friendica). E o melhor: Friendica “conversa” com Diaspora*, ou seja, fulana@antiexploracao.net “conversa” com fulano@antipelegada.net sem precisar instalar nada extra. É como se seu Twitter “conversasse” com seu Facebook direto, sem plugins.

    Para apimentar mais, tem o Mastodon, que é uma rede social com recursos de microblogging. É um Twitter, só que livre. O Mastodon pode, por exemplo, receber um RSS de um site e republicar automaticamente, sem qualquer necessidade de trabalho “humano”. É excelente para disseminar conteúdo. Melhor ainda: Mastodon “conversa” com Friendica, ou seja, beltrana@libranet.de “conversa” com sicrana@mastodon.social. E como beltrana@libranet.de “conversa” com beltrano@diaspora.com.br, todos terminam “conversando” com todos.

    O modelo das redes sociais federadas tem sido replicado em outros meios. Veja-se o caso do Peer Tube, nome tanto do software quanto da rede descentralizada de hospedagem de vídeos — algo como um YouTube federado. No modelo do Peer Tube, cada pod hospeda seus próprios vídeos e faculta acesso aos vídeos hospedados em outros pods.

    Toda esta flexibilidade só é possível porque — e é a segunda razão para nossa opção pelas redes sociais federadas — por trás do Mastodon, da Friendica, da Diaspora*, do Pump.io, do Peer Tube e similares há a concepção de que redes sociais são serviços de utilidade pública, que devem estar disponíveis para todos como software livre (o que não impede algum provedor privado de cobrar pelo serviço). Na medida em que são concebidas como serviços de utilidade pública, redes como Mastodon, Friendica, Diaspora* e Pump.io facilitam enormemente a expressão individual e coletiva. Isto vai na contramão do modelo das redes corporativas, que apresentam-se como uma “nova esfera pública” quando, na verdade, são serviços privados de captação de dados pessoais e metadados de conexão para posterior monetização via publicidade e propaganda direcionada.

    Para entender a questão, é preciso, primeiro, entender a diferença entre dados e metadados da sua presença e atividades na internet. Dados dizem respeito a quem você é e o que você faz enquanto está na internet; metadados (ou seja, “dados sobre os dados”, “informação sobre a informação”) dizem respeito a como você navega na internet (que horas entra, que horas sai, quanto tempo navega, com quem se relaciona, que sites visitou etc.). O que dá dinheiro às redes sociais corporativas não é, fundamentalmente, o que você faz ao usá-las, mas sim os metadados que você fornece involuntariamente enquanto as usa. É aquela conhecida história das propagandas de passagens aéreas que aparecem recorrentemente em sua tela um dia ou dois depois de alguém usar seu computador para pesquisar o preço de um voo para Roraima: nem o Google nem o Facebook leem sua mente, bastam os metadados e alguns likes para que estas duas empresas te conheçam melhor que sua mãe.

    A concepção das redes sociais como serviços de utilidade pública inverte a situação. Embora continue sendo tecnicamente possível seguir este mesmo esquema de mercantilização, a confluência entre o fato de os softwares por trás destas redes serem livres e gratuitos e o modelo de múltiplos pods independentes dificulta enormemente a vida de quem tente ganhar dinheiro com os dados e metadados dos usuários: basta que os usuários encerrem suas contas no pod que tentar fazê-lo e migrem para outro pod, e o esquema de monetização se dissolve por completo.

    Estas salvaguardas embutidas no modelo das redes sociais federadas servem para manter dados pessoais o mais longe possível do alcance de empresas como Facebook, Twitter etc. Além disto, sabe-se hoje como empresas como Google (dona, entre outros serviços, do Waze), Facebook (dona também do Instagram e do WhatsApp) e muitas outras colaboram ativamente com a vigilância digital, fornecendo voluntariamente e de bom grado à Agência Nacional de Segurança estadunidense, dados e informações pessoais que, pelos contratos e termos de serviços que nos empurram goela abaixo quando aceitamos usar seus serviços, deveriam ser confidenciais (salvo por ordem judicial). A multiplicação e dispersão de pods dificulta muito a obtenção massiva de dados, servindo como camada extra de segurança na internet — e esta é a terceira razão que nos levou a apostar nas redes sociais federadas.

    A quarta e última razão é bem simples: todas as redes federadas integram-se bem com a plataforma WordPress que usamos para manter o site na internet. Há plugins para publicação automática (p. ex., este), plugins para compartilhamento de artigos e interação nestas redes (p. ex., este e este), além de outras funcionalidades que testaremos com o tempo. Se há a possibilidade de dar este passo, e somos um dos poucos sites no Brasil a ter esta preocupação, temos a obrigação de fazê-lo.

    ***

    Não queremos fornecer um “manual” de redes sociais federadas. Outros mais competentes que nós certamente já os fizeram (como este e este). Pretendemos apenas expor quatro — fortes! — razões que nos levaram a apostar nestas redes, criando perfis em servidores e pods já existentes para distribuir nosso conteúdo por meio deles. Estes perfis, no momento, serão dedicados à publicação nestas redes dos artigos de nosso site, no ritmo de um artigo mais antigo por semana e de replicação dos artigos novos da semana. Na medida em que outras oportunidades se apresentarem, os perfis do Passa Palavra nas redes sociais federadas poderão ter outros usos.

    Eis um passo a passo de como acompanhar o Passa Palavra em redes sociais federadas.

    Na Diaspora*, basta criar uma conta num pod de sua preferência e clicar aqui para seguir nosso perfil (quem já tiver perfil nesta rede pode pesquisar por passapalavra@framasphere.org) O Passa Palavra criou um perfil neste pod aqui, mas você pode seguir nosso perfil a partir de qualquer pod.

    No Mastodon, mesmo processo: crie uma conta no pod de sua preferência e clique acui para seguir nosso perfil (quem já tiver perfil nesta rede pode pesquisar por @passapalavra@mstdn.io , assim mesmo, com arroba no começo).

    Na Friendica, mesma coisa: crie uma conta no pod de sua preferência e clique aqui para seguir nosso perfil (quem já tiver perfil nesta rede pode pesquisar por passapalavra@social.isurf.ca).

    Na Pump.io, idem: crie uma conta no pod de sua preferência e clique aqui para seguir nosso perfil (quem já tiver perfil nesta rede pode pesquisar por passapalavra@datamost.com).

    Se você já está nestas redes, tanto melhor: basta seguir nossos perfis e acompanhar nossas publicações. Aceitamos, claro, sugestões neste campo. Uso de ferramentas das redes, novas formas de difusão de conteúdo, meios de interação, estamos dispostos a testar várias possibilidades.

    Quem já nos segue em redes como Facebook e Twitter não precisa se preocupar. Não vamos apagar nossos perfis e páginas nestas redes. Queremos apenas ter outros canais de divulgação e ampliar nossa presença na internet. Entendemos que este passo é, também, uma forma de chamar a atenção de nossos leitores para formas mais seguras de comunicação e interação.

    Nos vemos nas redes!

    VIA https://passapalavra.info/2019/05/126454/

    FONTE https://passapalavra.info/2019/05/126454/

  • 2019-05-14T08:45:32Z via Dianara To: Public CC: Followers

    Início Destaques Exploração de estagiários em escritórios de arquitetura

    Exploração de estagiários em escritórios de arquitetura

    https://passapalavra.info/2019/05/126435/

    É assim que os estagiários de arquitetura são tratados, são mal remunerados, apesar de executarem todo o trabalho dos escritórios. Não têm direitos, só deveres! São mão de obra barata! Pior que existe regulamento, mas ninguém se importa.

    08/05/2019

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    Por Hugo Nunes

    Na sequência de diversos relatos sobre assédios, abusos e lutas nos locais de trabalho, publicamos agora um relato sobre as experiências de um estagiário em escritórios de arquitetura. Para conferir relatos de outras categorias de trabalhadores, acesse este link.

    Os meus 3 estágios nunca chegaram a durar 6 meses cada um, sempre por causa de atritos que eu tive com meus chefes. O primeiro incentivava os 3 estagiários (não havia nenhum profissional formado para assinar os projetos) a não assinarem suas carteiras para não “perderem dinheiro”. Os estagiários eram responsáveis por fazer absolutamente todo o trabalho do escritório. E no final do mês? Sempre atrasos nos pagamentos! Eu mesmo fui mandado embora porque cobrava insistentemente o pagamento do meu salário de forma pontual.

    O segundo estágio foi um longo processo seletivo que, segundo o arquiteto responsável pelo escritório, “contou com mais de 1000 análises de currículo”, inclusive com testes de domínio técnico. Faço questão de dizer qual empresa é: Studio Guilherme Torres. Eu consegui ser o escolhido para ocupar a vaga de estagiário, mesmo o Guilherme tendo dito na minha cara que eu não serviria, tentando me rebaixar, mostrando que para trabalhar ali tinha que ser muito bom. Na primeira semana tive que trabalhar das 9:00 da manhã às 18:00 para “eu me adaptar mais rapidamente ao ambiente de trabalho”. Durante essa semana percebi como o Guilherme e o arquiteto abaixo dele (o braço direito) faziam questão de manter um ambiente de trabalho tenso: hora ou outra eles tratavam os outros de forma ríspida, embora tentassem quebrar o gelo em outros momentos. Uma das vezes que tive dúvidas sobre o trabalho que eu estava executando fui duramente repreendido na frente de todos os funcionários. Durante os primeiros dias não quiseram assinar meu termo de estágio porque a ideia era me testar ao máximo antes. Uma semana depois fui demitido porque pedi para atender uma ligação (era uma ligação importante que eu estava esperando sobre o financiamento do meu carro). Fiquei revoltado! Mesmo assim fui extremamente educado e calmo, cumprimentei a todos, agradeci e fui embora. Neste dia o “braço direito”, que foi quem realmente havia decidido me contratar, estava doente e não foi trabalhar. Mandei uma mensagem a ele, agradecendo pela oportunidade e desejando melhoras na sua recuperação, mas ele nem se deu o trabalho de me responder. Me senti um lixo!

    É assim que os estagiários de arquitetura são tratados, são mal remunerados, apesar de executarem todo o trabalho dos escritórios. Não têm direitos, só deveres! São mão de obra barata! Pior que existe regulamento, mas ninguém se importa.

    No meu terceiro estágio fui demitido porque pedi para faltar 2 vezes (ao logo de 1 semestre), sendo que eu havia reposto as horas. Minha chefe achou que eu era folgado, retruquei e disse que eu fazia todas as minhas obrigações. Ela chorou pela forma que respondi e fui demitido.

    Meus amigos também têm histórias bizarras. Uma delas, por exemplo, foi demitida porque bebia café da empresa (1 xícara por dia). QUAL O PROBLEMA DISSO? Todo funcionário toma cafezinho. A dona do escritório disse que se a minha amiga fosse beber café todo dia ela teria que trazer o próprio café de casa. Minha amiga achou isso absurdo, questionou e foi demitida no 3º dia de contratação.

    Ilustram este artigo fotos de Marcel Gaucherot sobre a construção de Brasília.